A crise na Auto Viação Mercês ganhou mais um capítulo nesta semana. Funcionários voltaram a se mobilizar e se reuniram, novamente, na portaria da empresa, sem qualquer novidade desde a última paralisação. Motoristas e cobradores relatam atrasos recorrentes em salários, falta de pagamento de benefícios e um cenário de completo abandono por parte da direção da empresa.

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Foto: Eliandro Santana/Banda B.

Na semana passada, os trabalhadores chegaram a parar as atividades, mas a informação era de que os pagamentos estariam sendo feitos. Isso não aconteceu, conforme contou um dos motoristas, com mais de 10 anos de casa. Ele resume o sentimento de indignação vivido pelos trabalhadores.

“Novidade zero, a gente está aqui mobilizado mais um dia, novamente, todos os colaboradores tentando pleitear um acordo com a diretoria da empresa, que nada fez até agora”

afirmou o motorista, que há 10 anos trabalha na empresa.

Ele lembra que os problemas vêm se acumulando há meses. “A gente ficou sem 13º, aí ficamos sem pagamento por 8 dias, do dia 7 até o dia 14, fizemos a paralisação com indicativo de greve e, enfim, continuam as pendências. Até então, ontem era o nosso vale, estamos sem vale, sem receber e é isso, estamos aí lutando hoje mais um dia”.

Segundo os funcionários, a situação é ainda mais grave quando se trata do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

“O fundo de garantia há anos não vem sendo depositado. A gente tem colegas de trabalho de 10, 15, 20, 30 até 42 anos de empresa e o FGTS nosso o saldo é negativo”

denunciou o motorista.

Ele também relatou que a Urbs notificou a empresa, que estaria impedida de operar o sistema de transporte coletivo até uma definição oficial. “De momento não temos resposta do sindicato. Eles estão em reunião agora com a Setransp e Urbs”.

Um funcionário com 35 anos de empresa afirma que a falta de informações aumenta ainda mais a angústia.

“Sem décimo, pagamento atrasado, vale ainda não recebemos e a gente fica aí sem resposta deles, sem saber o que a gente vai fazer. E não comunicam nada para a gente sobre se vai funcionar a empresa, se não vai. A gente está aqui todo dia esperando a resposta deles, mas eles não dão resposta nenhuma”

disse o trabalhador, com 35 anos de empresa.

Ele ainda relatou que descobriu a ausência de depósitos no FGTS ao conferir pessoalmente. “Caí de costa porque não tem nada, né, depositado. E falavam que estavam depositando, daí um dia fui conferir na Caixa, não tinha nada depositado. Não deram retorno nenhum, eles nem dão bola para a gente”.

Dificuldades

Outro motorista, com 13 anos de empresa, foi ainda mais direto ao criticar a postura da direção. “Vai levando nós e enganando. Ela não tem palavra nenhuma. Eu acho que o maior caráter dela é a palavra. Se não tem palavra, fala a verdade. Não fica assinando o papel e não cumprindo o que deve cumprir. Ela vem empurrando com a barriga pendências que ela disse que não é dela”.

O impacto da crise também chega dentro das casas dos trabalhadores. Um funcionário com 23 anos de empresa relata dificuldades para manter o básico.

“Estamos abandonados aqui, ninguém dá um papel, alguma coisa, ou libera o seguro-desemprego para a gente poder trabalhar. Em casa está faltando as coisas, passando necessidade, o grupo não está nem aí para nós, assumiu as linhas e largou nós tudo abandonado aqui na frente da empresa. Eu quero a resposta de alguém”.

desabafou o funcionário, com 23 anos de empresa.
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Na semana passada, a Urbs notificou a Viação Mercês e o Consórcio Pontual Foto: Pedro Ribas/SMCS/Arquivo.

Paralisação na Auto Viação Mercês

Na última semana, após paralisação que deixou ônibus fora das ruas e afetou principalmente os bairros Santa Felicidade e São Braz, o Setransp confirmou que os salários começaram a ser pagos pelo Consórcio Pontual. Apesar disso, os trabalhadores afirmam que as pendências continuam, como o pagamento de vale, FGTS e garantias trabalhistas.

Na semana passada, a Urbanização de Curitiba (Urbs) informou que notificou a Auto Viação Mercês e o Consórcio Pontual para que apresentem, em até cinco dias, os comprovantes de pagamento das verbas atrasadas e um plano que comprove capacidade operacional. Também determinou que as empresas Glória e Santo Antônio assumam as operações da Mercês, conforme regra contratual, caso a situação não seja regularizada.

Novo prazo para a empresa

Procurada novamente pela Banda B, a Urbs disse que atendeu a um pedido da Auto Viação Mercês e deu um prazo de mais quatro dias úteis para que a empresa apresente um plano detalhado de recuperação, com pagamento das verbas trabalhistas e viabilidade de operações.

“O pedido foi feito por representantes da Mercês durante reunião na segunda-feira (19) na sede da Urbs, que teve a participação também das empresas Gloria e Santo Antonio, que integram o consórcio Pontual. A Mercês está sem operar desde quarta-feira (14) por conta de uma greve dos funcionários que reclamam de atrasos nos pagamentos de salários”

diz a nota da Urbs.

Se não apresentar um projeto de viabilidade de consistente, as linhas operadas pela Mercês passarão em definitivo para a Santo Antonio e Gloria, que já assumiram os trabalhos de forma temporária desde a última quarta-feira. De acordo com a Urbs, a empresa precisa apresentar uma frota com condições de operar e também capacidade de pagamento das verbas trabalhistas em atraso e futuras. A Urbs também ressalta que todos os pagamentos do município às empresas de transporte coletivo estão rigorosamente em dia, conforme os contratos vigentes.

Para minimizar o impacto da greve, a Urbs transferiu as linhas operadas pela Mercês para outras empresas do sistema, garantindo o pleno atendimento dos passageiros.

A frota da Viação Mercês é composta por 35 ônibus, responsáveis pela operação de sete linhas exclusivas – X46 – Especial Mercês; 150 – C. Music/V. Alegre; 912 – José Culpi; 913 – Butiatuvinha; 915 – O. Verde/V. Bádia; 967 – Júlio Graf; e 972 – Jardim Itália – e dez linhas compartilhadas do sistema de transporte coletivo de Curitiba. – 022 – Inter 2 (horário), 023 – Inter 2 (anti-horário), 040 – Interbairros IV, 464 – A. Munhoz/Jardim Botânico, 817 – Saturno/Veneza, 821 – Fernão Dias, 901 – Santa Felicidade, 902-Santa Felicidade/Praça Tiradentes, 911- Passaúna e 979 – Linha Turismo.
Segundo a Urbs, a Viação Mercês vinha sendo notificada desde o ano passado por atrasos em pagamentos, além de problemas no atendimento e reclamações relacionadas à manutenção e à quebra de ônibus. A Urbs destaca que iniciou, na sexta-feira (16/1) uma vistoria especial em todos dos ônibus da frota da empresa.

Também procurado, o Setransp (Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba) informou que aguarda o posicionamento da Urbs no que diz respeito ao prazo para a comprovação de capacidade financeira e operacional da empresa Auto Viação Mercês.