Por dentro dos muros do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, existe algo que vai muito além de corredores, consultórios e centros cirúrgicos. O que pulsa ali todos os dias é uma verdadeira cidade em funcionamento contínuo, movida por ciência, solidariedade, esperança e, sobretudo, pessoas.
Os números ajudam a dimensionar esse universo. No ano passado, a instituição realizou 2.619.779 procedimentos, quase dez mil por dia. É como se, ao longo de 12 meses, o hospital executasse um volume de atendimentos equivalente à toda a população de Curitiba passando por um procedimento médico, e ainda sobrasse gente.

Pela portaria, passam diariamente milhares de pessoas entre pacientes, acompanhantes, profissionais e voluntários. Em 2025, 87 mil pacientes receberam atendimento no Erasto. Esse número é maior do que a população de cidades como Campo Mourão (cerca de 95 mil) e Pato Branco (pouco mais de 85 mil).
“Se você colocar isso, que cada um pode vir com um ou dois acompanhantes, nós estamos falando algo acima de 5 mil pessoas que passam da portaria de acesso ao hospital todos os dias para realizar algum tipo de atendimento e voltam para as suas residências”
explica o diretor executivo administrativo do Hospital Erasto Gaertner, Fernando César Oliveira.
Como todo município, a “cidade Erasto Gaertner” tem seus trabalhadores. São mais de 1.900 colaboradores, cerca de 320 médicos no corpo clínico e uma rede de terceiros que ajudam a sustentar o funcionamento dessa engrenagem complexa.
Instalado em um terreno de 62 mil metros quadrados, com 25 mil metros quadrados de área construída, o hospital atende majoritariamente pelo Sistema Único de Saúde. Mais de 78% dos atendimentos são via SUS. Isso reforça o caráter filantrópico e o desafio diário de manter portas abertas, equipamentos modernos e atendimento humanizado.
“Tem toda uma logística por trás que está sendo pensada e cada vez mais pensada em dar o bem-estar, porque nós temos o nosso próprio propósito, que é combater o câncer com humanismo, ciência e afeto. Cada vez mais pensar em como acolher da melhor forma essa população que busca atendimento aqui no Erasto”
afirma o diretor.

Hospital Erasto Gaertner: história de amor e solidariedade
Essa história começou muito antes de o hospital existir fisicamente. Em 18 de março de 1954, sob a presidência de Anita Gaertner, nascia a Rede Feminina de Combate ao Câncer, com o objetivo de angariar recursos para pacientes carentes. O trabalho voluntário da Rede e da Liga Paranaense de Combate ao Câncer foi fundamental para que, em 8 de dezembro de 1972, o Hospital Erasto Gaertner fosse oficialmente inaugurado.
Um dos médicos que ajudaram a escrever os primeiros capítulos dessa trajetória é Sergio Hatschbach, que acompanha o hospital há mais de cinco décadas. Ele lembra dos tempos em que os recursos eram escassos e as urgências batiam à porta. Logo após a inauguração, precisou realizar uma cirurgia de emergência em um paciente sem tanta estrutura. Hoje, ao olhar para trás, o médico se emociona com a transformação.
“E aí, quando você lembra disso e vê que hoje o hospital é uma escola de cirurgia robótica, com profissionais preparados que dão cursos de maneira internacional, com médicos que recebem pessoas de fora da América Latina para treinamento em cirurgia robótica. Então, imagine a evolução que isso ocorreu. Quando nós começamos, éramos quatro médicos jovens, e de repente você vê que hoje você tem dentro da estrutura, talvez um dos hospitais de oncologia com a maior formação de profissionais”
ressalta.
Para Sérgio Hatschbach o orgulho é inevitável. “Isso me dá muito orgulho. Você sentir que você começou uma história lá atrás e que hoje você vê o fruto evoluindo de uma maneira bastante fantástica. Eu não tenho a menor dúvida de que o objetivo que a gente procurou em 1970, lá pra trás, a gente conseguiu cumprir e, evidentemente, deixamos um legado”, completa.
Segundo o médico é algo difícil de explicar, mas fácil de sentir.
“Eu diria que é uma coisa, é uma magia, que a gente vê, a gente reconhece. Eu, que estou 53 anos dentro do hospital, acho que ele atende um tipo de enfermidade que traz um certo sentimento de necessidade e você está colaborando com as pessoas que lá chegam em busca de uma esperança”
concluiu.

Símbolo de acolhimento e empatia
Se municípios são medidos por ruas, prédios e população, o Hospital Erasto Gaertner também pode ser medido por algo menos visível: o alcance humano. Dentro dessa “cidade hospitalar”, cabem desde a alta tecnologia da cirurgia robótica, que atrai médicos de fora do Brasil, até o acolhimento silencioso do Hospice, com 25 leitos de cuidados paliativos.
O Hospice cuida de pacientes em cuidados paliativos, oferecendo dignidade, conforto e afeto nos momentos mais delicados da vida, incluindo as famílias. É mais um reflexo de uma filosofia que entende o tratamento como algo que envolve corpo, mente e relações.

O coração humanitário dessa cidade bate forte na Rede Feminina de Combate ao Câncer. Aos 88 anos, a presidente da entidade, Janice Gastaldon, atua há 25 anos como voluntária.
“Nós damos assistência para todos os pacientes que aqui vêm, desde o início até o final do tratamento. Nós realmente suprimos as necessidades materiais e damos um suporte de equilíbrio emocional para que as pessoas não desanimem do tratamento, porque vocês sabem que o câncer ainda não é a doença que mais mata, mas é a mais dolorosa para tratar”
considerou Janice Gastaldon.
Janice, que já viveu muitas experiências na rotina do hospital, resume o papel da Rede dentro da instituição.
“A missão do hospital é combater o câncer, tratar o câncer, com o humanismo, ciência e arte. A ciência fica com os médicos. Agora, o acolhimento, o humanismo e o afeto realmente cabem muito à Rede Feminina. Esse suporte que a gente dá para o paciente ajuda o hospital a tratar a doença do ponto de vista científico. Então, nós temos esse papel de exercitar bem e executar bem o humanismo”
disse Janice.

Para a presidente da Rede, o voluntariado é mais do que uma função, é como se fosse um chamado.
“É a essência do ser humano. Como você pode ajudar uma pessoa a passar por essa dificuldade, que é grande? É como se você estivesse realmente cumprindo o segundo mandamento de Deus: primeiro, amar a Deus sobre todas as coisas, e depois ao próximo, como a ti mesmo. Quando eu estou atendendo um paciente, eu estou atendendo Jesus, estou atendendo Deus, que está configurado naquele doente, finalizou”
comentou Janice.

Da superação ao voluntariado
Nenhuma cidade se sustenta apenas com números e estruturas. São as histórias humanas que dão sentido a tudo. A administradora Beatriz Helena Flores Paes, hoje com 48 anos, é um desses exemplos. Diagnosticada com câncer de mama em 2017, ela viveu intensamente os dois lados dessa cidade: o de paciente e o de voluntária.
“Fiz três cirurgias, fiz quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, e continuo fazendo o meu tratamento. Agora eu tenho minha consulta, que é uma vez no ano, e continuo ainda tomando medicação oral. Então, já são, desde 2017, quase 10 anos que eu tô fazendo o meu tratamento no hospital”
contou à Banda B.
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Quando completou cinco anos de tratamento e recebeu a notícia da cura, o coração dela foi tocado e decidiu retribuir.
“Quando eu completei cinco anos do meu tratamento, que eu já estava curada, eu me inscrevi na Rede Feminina, pra ser voluntária. A princípio trabalhava lá com as crianças, fazia acolhimento, brincava, e depois eles precisavam de alguém pra ser o mascote do Erasto”
lembrou.

Nasceu ali o Erastinho, personagem que levou leveza a ambientes difíceis. Para Beatriz, vestir o personagem era também parte do próprio processo de cura.
“Eu queria retribuir um pouco do que tudo que eu recebi ali no hospital, todo o acolhimento que o hospital deu, os profissionais do hospital, as voluntárias da rede feminina. Aí surgiu a oportunidade de ser o Erastinho e isso, meu Deus, acho que era muito melhor pra mim do que pras próprias crianças, porque o amor que eu senti através do Erastinho é muito grande, é muito gratificante. Então, sempre fiz com muito amor”
afirmou.
Hoje, Beatriz vive em outra cidade e não consegue mais ser voluntária. Ao resumir sua relação com o Hospital Erasto Gaertner, a administradora se emociona.
“Ali foi onde eu tive a minha pior notícia e a minha melhor notícia. Eu descobri o meu câncer ali, eu fiz todo o meu tratamento, e cheguei na cura. Eu só tenho a agradecer o hospital, a todos os médicos, todos os enfermeiros, todos os profissionais que me atenderam. O hospital pra mim é um local de amor, de acolhimento, de restaurar mesmo e curar”
concluiu.

Ajuda para manter os cofres da cidade Erasto Gaertner em dia
Manter uma cidade como essa em funcionamento não é simples. O presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Estado do Paraná (Femipa), Charles London, lembra das dificuldades financeiras enfrentadas pelos hospitais filantrópicos.
“O sistema filantrópico é muito importante no atendimento à saúde no Brasil inteiro. A filantropia está relacionada a atendimentos ao Sistema Único de Saúde, que já é de conhecimento que a remuneração do SUS é insuficiente para fazer frente aos custos. Então, as medidas alternativas dentro da filantropia, permitindo outras formas de redução dos seus custos, são fundamentais para poder manter esses hospitais”
citou Charles London, presidente da Femipa.
London explica que a Femipa atua em várias frentes para apoiar instituições como o Erasto.
“A gente tem trabalhado em algumas frentes. Primeiro na sensibilização, na divulgação de ações que acontecem nesses hospitais e junto ao poder público naturalmente também. E também tem trabalhado muito na questão da melhoria da gestão desses hospitais como um todo. Os hospitais sempre conseguem ter melhor gestão, naturalmente têm resultados melhores e menos dificuldade para sua manutenção”
detalhou.
