Diante de uma plateia que lotou a Pedreira Paulo Leminski, com aproximadamente 30 mil pessoas, Marisa Monte apresentou, na noite deste sábado (15), a turnê Phonica, um espetáculo que vai muito além de um simples show: funcionou como um retrato vivo de por que a artista permanece, há praticamente quatro décadas, no topo da música popular brasileira.
Em duas horas de concerto, acompanhada por uma orquestra com 55 músicos e por sua banda habitual, Marisa Monte revisitou em Curitiba o próprio repertório, renovou clássicos, apresentou uma canção inédita e reafirmou, com sutileza e rigor, sua capacidade singular de unir técnica e emoção no mesmo gesto. Veja vídeos abaixo.

Um espetáculo construído na lógica da canção
A estrutura de Phonica não foi pensada para colocar Marisa no centro desde o primeiro segundo. Quem abre o show é a orquestra, conduzida pelo maestro paulistano André Bachur, enquanto a cantora chega discretamente alguns compassos depois, deslocando o foco para a música.
Vestida de rosa e vermelho, com flores no cabelo e uma estética que evoca delicadeza, Marisa entra em cena quase como continuidade natural da melodia que já ecoa no ar. A opção revela a filosofia da artista: tudo começa pela canção.
A presença de Bachur, que transita com naturalidade entre a música erudita e a popular, define a sonoridade da turnê. Ele conduz um conjunto numeroso, mas nunca ruidoso, que dá novos contornos ao repertório sem transformá-lo em peça de concerto.
A orquestra reconfigura sutilezas, amplia cores harmônicas e cria uma moldura diferente, porém respeitosa, para composições que já fazem parte do imaginário do público.
Ao longo do espetáculo, fica claro que Phonica não pretende desviar a essência das músicas, mas aprofundá-las. Arranjos inéditos criados por Ubiratan Marques, Newton Carneiro, Thiago Costa, Débora Gurgel e Jether Garotti mantêm a arquitetura original das canções, apenas adicionando novas camadas que ressaltam nuances esquecidas com o tempo.
O resultado é uma atualização elegante, que não cede à tentação de grandes reinvenções. O protagonismo sempre volta ao que realmente importa: a obra.
Repertório que atravessa gerações
O roteiro de 27 músicas percorre todas as fases da carreira de Marisa, de faixas lançadas no fim dos anos 1980 às composições mais recentes. A artista inicia com “Vilarejo”, que ganha coro imediato da plateia e, logo nas primeiras estrofes, mostra o tom da noite: afeto compartilhado e memória coletiva. A partir dali, o público acompanha, quase sem respirar, um passeio por anos importantes de história musical do Brasil.
Há espaço para hinos populares, como “Amor I Love You”, “Ainda Bem”, “A Sua” e “Beija Eu”, além de canções que marcaram momentos específicos da carreira, como “O Que Você Quer Saber de Verdade”, “Infinito Particular” e “Ainda Lembro”. Todas recebem arranjos orquestrais, mas é a entrega vocal de Marisa que sustenta o fio emocional da apresentação.
A escolha de inserir “Sua Onda”, composição inédita feita especialmente para a turnê em parceria com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, demonstra a preocupação da artista em não cristalizar seu repertório no passado. Ela mesma explica, no palco, que queria trazer algo novo para dialogar com os clássicos, e abrir um novo caminho para o futuro.
O público recebe a novidade com curiosidade e naturalidade, como se reconhecesse ali a continuidade lógica de sua trajetória.
Além de suas próprias composições, Marisa abre espaço para homenagens precisas. “Panis et Circenses”, dos Mutantes, aparece como memória viva do tropicalismo; “Cérebro Eletrônico”, de Gilberto Gil, ganha nova vitalidade com atmosfera quase roqueira; e “Carinhoso”, de Pixinguinha, fecha o show como um presente ao público, interpretada com delicadeza quase devocional. Em todos esses momentos, a orquestra funciona como ponte entre épocas, conectando tradição e contemporaneidade.
Veja a setlist turnê ‘Phonica – Marisa Monte & Orquestra ao Vivo’ em Curitiba:
- “Vilarejo”
- “O Que Você Quer Saber de Verdade”
- “Infinito Particular”
- “Carnavália”
- “Maria de Verdade”
- “Ao Meu Redor”
- “Sua Onda”
- “Ainda Bem”
- “Aliança”
- “Amor I Love You”
- “Diariamente”
- “Beija Eu”
- “É Você”
- “De Mais Ninguém”
- “Depois”
- “Ainda Lembro”
- “A Sua”
- “Gentileza”
- “Segue o Seco”
- “Panis et Circenses”
- “Cérebro Eletrônico”
- “Feliz, Alegre e Forte”
- “A Lenda das Sereias”
- “Magamalabares”
- “Velha Infância”
- “Não Vá Embora”
- “Carinhoso”

Elegância como método artístico
A elegância de Marisa Monte, frequentemente citada como marca estética, em Phonica se revela mais como método do que como adorno. Cada movimento no palco, cada olhar dirigido aos músicos, cada troca com a plateia parece calculado para transmitir cuidado e precisão, mas nunca rigidez. A artista se move com naturalidade, gesticula sem excessos, sorri sem ostentação. Há profundidade na contenção e leveza na firmeza.
O visual do espetáculo acompanha essa linha. O cenário assinado por Batman Zavareze aposta em projeções e cores que variam de acordo com cada música, sem jamais disputar atenção com o repertório.
Na turnê Portas, era comum que as imagens chamassem mais atenção do que as próprias canções; aqui, o equilíbrio é absoluto. As escolhas visuais reforçam a atmosfera de delicadeza, criando um quadro que se ajusta ao repertório sem engolir a performance.
O figurino também conta uma história. Em Curitiba, Marisa começou com um traje rosa exuberante, depois tirou a camada externa para revelar um vestido vermelho de cetim, mais leve. Flores nos cabelos completaram a composição, evocando um ar de Frida Kahlo contemporânea.

Nenhuma escolha é aleatória. A artista sabe que o palco é uma narrativa visual, mas, em sua concepção, essa narrativa serve ao som, não o contrário.
E a voz, mesmo mais suave do que no início da carreira, alcança uma maturidade que só o tempo permite. Marisa sustenta notas com precisão, brinca com pequenas ornamentações e, quando decide arriscar um toque operístico, o faz sem perder o eixo popular.
Em músicas como “É Você” e “Depois”, sua interpretação provoca um silêncio coletivo que antecede o coro, sinal inequívoco de sintonia entre artista e público.

A permanência de um legado
Phonica funciona, acima de tudo, como confirmação de que o repertório de Marisa Monte resiste ao tempo. Comprova a capacidade de reinvenção da artista sem transformar a própria obra em peça de museu, e valida a parceria com Brown e Antunes, como ela realmente é: produtiva e coerente. Sua presença no palco dispensa artifícios.
Ao contrário de turnês anteriores, como Portas ou Verdade, Uma Ilusão, Phonica não gira em torno de um álbum recém-lançado. Isso dá liberdade para que Marisa estabeleça uma narrativa de carreira, sem obrigação de promover novidade. O novo, aqui, é a própria perspectiva: olhar para trás com distância suficiente para reorganizar as canções sem perder identidade.
Há quem enxergue sinais de desgaste na fórmula pop-clássica que a cantora adotou nos últimos anos. Mas Phonica mostra o contrário: quando o repertório é sólido, o formato não se esgota tão facilmente.
Mesmo que a orquestra não transforme todas as músicas em algo radicalmente diferente, ela acrescenta densidade emocional, principalmente em faixas como “Depois”, “Diariamente” e “Segue o Seco”, que ganham camadas inesperadas.
A resposta do público confirma essa permanência. Na apresentação, quase todas as 27 músicas foram cantadas em uníssono, em coro espontâneo que não se força em produção nenhuma. É uma relação construída em décadas, não em temporadas. Em determinados momentos, as vozes se uniram com tal intensidade que, por instantes, era difícil distinguir artista e plateia. Era uma única massa sonora, pulsando no mesmo ritmo.
Ao final do show, quando os últimos acordes se dissipam e o silêncio antecedeu os aplausos, ficou evidente o que Phonica representa: não é apenas espetáculo, nem tributo, nem retrospecto. É uma celebração de permanência. Um lembrete de que certas obras atravessam gerações porque guardam afeto, rigor e verdade.
A artista que continua sabendo exatamente o que faz
40 anos depois de surgir, primeiro como uma pretensa novidade em 1985, e depois como uma promessa cult em 1989, Marisa Monte continua sendo parâmetro. Impôs padrões como intérprete, consolidou-se como compositora e construiu uma obra autoral que combina lirismo, experimentação e apelo popular.
Sua voz, antes mais crua, hoje é madura, elegante e segura. Sua presença, antes mais explosiva, hoje é concentrada, minimalista e precisa. Nada nela é aleatório.
- Agenda de shows em Curitiba: veja os nomes da música que vão passar pela capital paranaense em 2025 e 2026
Phonica é a síntese dessa trajetória. Une o erudito e o popular, a emoção e a técnica, a artista e o público. É clássico sem ser antiquado, grandioso sem ser pomposo. É a prova de que a relevância não se conquista disputando atenção, mas cultivando consistência.
Quem viu a turnê, em qualquer uma das cidades em que ela passou, saiu com a sensação de ter participado de um ritual raro, daqueles que ficam na memória por muito tempo. No encontro entre a orquestra, a banda, a artista e o repertório, algo se alinhou no ar. E, quando isso acontece, não se trata apenas de música: trata-se de experiência.
Phonica é isso. Uma experiência. E uma confirmação: Marisa Monte continua exatamente onde sempre esteve, no centro da canção brasileira.
Veja um compilado de vídeos:








































