“Aprendi a me priorizar. […] Sou eu em primeiro, segundo e terceiro lugar”. O trecho presente no primeiro single da artista paranaense Jess Luna, 27, ultrapassa a ideia de apenas causar impacto com frases fortes e vai além da intenção de estrear na cena musical. A música, lançada também em homenagem às mulheres na noite desta sexta-feira (8) — Dia Internacional da Mulher —, traz a essência da determinação, superação da violência, independência e autoconhecimento (ouça abaixo).

Para Jess Luna, a Jéssica Thoaldo da Cruz — nome usado em casos que exigem a formalidade —, “Senhorita” surge com o propósito de se tornar um ponto de força para as mulheres que enfrentaram o ciclo da violência e se viram diante da necessidade de enfrentar as contradições da vida e dominar a insatisfação. A música lançada pela curitibana radicada em Pontal do Paraná, no litoral do Estado, também revela traumas e a volta por cima sobre o que a fez ser fragmentada e impedida de continuar caminhando. 

“Acabei entrando em um relacionamento abusivo e vivendo em função dele. Quando vi, estava vivendo um inferno e só consegui ver a proporção de tudo ao sair da relação. Acabei vivendo a vida dele e perdendo a minha. Estava sem forças para seguir no mestrado ou até mesmo focar na arte, que sempre foi meu maior sonho”, destaca Jess, que explica ter precisado passar por uma fase introspectiva para se entender.

Senhorita Jess Luna: jovem paranaense ‘abençoada pela Lua’ lança música em que exalta as mulheres e expõe a luta pelo autoconhecimento
Jess Luna nasceu em Curitiba e, agora, busca em São Paulo possibilidades para mergulhar no mundo artístico – Foto: Arquivo pessoal

Segundo a jovem cantora geminiana, que carrega consigo traços marcantes da comunicação e da versatilidade, o nome Jess Luna não surgiu por acaso. Sua marca dialoga com o fascínio pelo único satélite natural da Terra e o quinto maior do Sistema Solar: a Lua. O dia 3 de junho de 1996, uma segunda-feira, marcou o nascimento da então garotinha, mas quase impediu que ela tivesse a oportunidade de conhecer a própria mãe, já que a mulher passou por complicações durante o pós-parto e “quase morreu”, segundo ela mesma aponta. Logo após o nascimento, Jéssica Thoaldo da Cruz foi “abençoada pela Lua” — ou consagrada ao satélite, como prefere dizer. O episódio se assemelha à cena da animação “O Rei Leão”, em que o filhote é apresentado ao Sol de cima de uma pedra. 

“Depois que eu nasci no Hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba (PR), meus pais me levaram para casa, em São José dos Pinhais. Era dia de Lua cheia e meus pais me consagraram a ela. Eles me abençoaram pela Lua”, afirma Jess, que também revelou ter uma marca de nascença na perna que se assemelha ao formato do satélite. 

Assim como a Lua influencia o mar, Jéssica destaca que a música “Senhorita” também aparece para potencializar a diversidade, provocar a autoridade, evocar a independência das mulheres e colocá-las como prioridade. Tudo isso ocorre com uma letra forte carregada de subjetividade e um beat que passeia entre o Pop, o R&B, o Trap, a essência do Black Music e o conceito do Street Style, embora reconheça evitar “se prender” em uma caixinha”. A canção foi totalmente escrita por ela.

Jess Luna se apresenta como a representação da potência com sua voz e afirma que “Senhorita” possui um tom empoderador, com o poder de “transformar o veneno em antídoto” para ressignificar dores e promover o renascimento. “Essa música tem que sair no dia 8 de março porque é para elas”, afirma a artista, que lança o clipe com a participação de grandes nomes da cena musical, como o coreógrafo e bailarino Gabriel de Almeida Carvalho, que já subiu aos palcos com Pabllo Vittar e Wanessa Camargo, por exemplo. A produção também possui mãos e personalidades do produtor musical Perim, do diretor Garaw e da produtora Thais Akemi Ogata de Souza (veja a ficha técnica completa abaixo).

À Banda B, a paranaense graduada em Ciências Sociais pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR), descreveu que o trajeto para chegar à música foi repleto de questionamentos, dificuldades e necessidade de se alcançar durante pouco mais de um ano. “Foi um percurso muito doloroso, de entrar para dentro, me entender como indivíduo e compreender não só a Jéssica, mas quem veio antes dela. Eu tive que entender minha ancestralidade, o que foi essencial para que eu pudesse me encontrar enquanto mulher e pessoa preta”, descreve a cientista social que, em 2017, foi premiada na categoria destaque em “Diversidade”, no VI Seminário de Extensão, Ensino, Pesquisa e Inovação (SE²PIN) com um artigo de pesquisa voltado ao colorismo.

Hoje, vivendo em São Paulo para alavancar a carreira artística, diz reconhecer que passou pelo processo de “morte e renascimento”. A Jéssica de 2019, por exemplo, diz ela, não é a mesma que lança um single e um clipe num dia que tem tanto significado. Vítima de uma tentativa de estupro, contudo, o foco continua sendo o mesmo: ressignificar as dores e os traumas. A música já corre em suas veias, e a vida ficou responsável por demonstrar a importância da arte para si mesma e para a sociedade: “Quando eu fui fazer a unha com minha manicure, coloquei a música para ela ouvir. Ela havia passado por um relacionamento abusivo e acho que ali ganhei meu dia. Todo o sacrífico que tive para fazer esse single dar certo e construí-lo sozinha, sem empresário ou investidor, valeu muito a pena. O ato de ela balançar a cabeça e confirmar que sentiu a maioria das frases que eu dizia durante a música me mostrou que ela se sentiu representada pela letra. Eu cheguei à conclusão que foi para isso que eu nasci… Foi para isso que eu ganhei esse dom.”

No começo de tudo quando o assunto é carreira e música, Jess Luna foi questionada pela Banda B o que diria para a Jéssica de dez anos atrás: “Nós vamos passar por muitas situações difíceis, mas você vai entender que tem uma força que desconhece. E vai ser através dessas dores que você vai reconhecer o quão forte é. Não vai ser um percurso fácil, mas você vai encontrar forças internas e na espiritualidade que te rege.”

E se o assunto é futuro, responde: “Eu espero que você não tenha desistido porque só você sabe o quanto lutamos para chegar até aqui. Espero que você esteja muito feliz, fazendo o que prometeu dentro da sociedade e que você esteja realizada, em paz com sua consciência, que tudo tenha valido a pena e que você tenha aproveitado essa viagem que se chama vida.”

A ficha técnica

  • Cantora e compositora: Jess Luna
  • Direção: Gabriel Silva de Araújo — Raw Films
  • Fotografia: Rodrigo Rodrigues de Castro
  • Coreografia: Gabriel de Almeida Carvalho
  • Ballet: Mariana Barros Pereira, Giovanna Almeida e Isabelle Hipólito
  • Makeup — Karla Fabiana Pereira Do Nascimento
  • Produção: Thais Akemi Ogata de Souza e Rodrigo Sobreira da Silva
  • Assistente-geral: Rodrigo Sobreira da Silva
  • Making of: Lucas Lemos Mendes de Souza
  • Parceiros: Feijão — FOAK; Jefferson (Jeff The Cria)

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