Ser independente é uma das tarefas mais difíceis que um artista pode encarar para existir. Além do talento, é preciso ter resistência, perseverança e um ou mais sonhos. É com a soma de toda essa equação que se faz Johnny Hooker. Trazendo a energia do Recife, com a mistura frenética do que realmente é a música brasileira, ele se apresentou em Curitiba nesta quinta-feira (27), num show ainda mais diferente: homenageando Marília Mendonça.

Além de homenagear, Clube da Sofrência – Uma Homenagem a Marília Mendonça foi um show pensado para unir os repertórios da rainha da sofrência com o… príncipe da sofrência? À Banda B, Johnny disse que é mais ou menos por aí.
“Ah, com certeza. Eu acho que a sofrência, a dor de cotovelo. O brega, em Recife, a gente é criado com isso, né?”.
Conhecido por letras que cutucam relacionamentos, amores e desamores, Johnny disse que mergulhar no repertório de Marília Mendonça o fez também ver o quanto os dois tinham em comum. Muito mais do que ele imaginava, inclusive.
“Eu acho que as nossas obras conversam muito. Inclusive eu acho que a própria Marília sabia disso. Os nossos discos saíram no mesmo ano, nossos primeiros discos saíram no mesmo ano, em 2015, e eu acho que ali tem um fator da música popular. Mas da música popular não da mais eletrônica, mas da música popular da mesa de bar, dos amores, dos desamores, dessa coisa passional bem latina, que é a música brasileira”.
Johnny chegou a conhecer Marília em 2018, rapidamente, em um evento de premiação. O encontro pode ter sido rápido, mas inspirador.
“Ela chegou a gravar um vídeo cantando uma música minha, cantando Alma Sebosa, na época eu eu pude ter o privilégio de conhecê-la numa premiação, a gente trocou um pouco, conversou um pouco. Ela falou que admirava muito o meu trabalho, eu falei que admirava muito o trabalho dela também”.
O show, que tem percorrido o país, ao mesmo tempo faz chorar pela lembrança de Marília, rir pela dor do coração partido superado e dançar pelo ritmo intenso que Johnny Hooker deu ao repertório.
“No processo desse show eu acabei descobrindo que acho que as nossas obras conversam até mais do que eu imaginava. O repertório é bem um duelo de hits assim, não é só Marília e pouco eu, ou muitas músicas minhas e pouco Marília. É um duelo, é uma minha, eu aí eu jogo pra Marília, Marília joga de volta pra mim e a gente vai assim até o final”.
Sem desistir
Na estrada há mais de dez anos, Johnny Hooker enfrenta na pele e sente no suor do dia-a-dia as dificuldades de não ter uma “estrutura gigante” por trás. Em maio do ano passado, o cantor chegou até a desabafar sobre essa dificuldade.
Sem desistir, ele disse que olhar para o repertório de Marília Mendonça também foi um momento de entender o significado do próprio trabalho.
“Eu acho que ter a força de Marília, das composições dela, de uma artista que já entrou pra história da música brasileira ali, dá uma esperança no sentido de que tem os hits dela e tem os meus hits, e pra mim são hits iguais assim, sabe? Só que eu não tenho, não tive, a estrutura que ela tinha para impulsionar né? Mas, enfim, é muito bom estar podendo homenageá-la”.
Falta pluralidade
O primeiro disco do cantor, Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito, foi feito com menos de R$ 15 mil. O dinheiro veio do bolso do próprio Johnny Hooker, que resolveu investir tudo no sonho, com todas as músicas compostas por ele.
O disco saiu em 2015, sem dinheiro para divulgar. Pouco tempo depois, Johnny teve música em novela das 21h da Globo, o disco foi premiado e proporcionou que o artista rodasse o Brasil. Aos poucos, o público foi conhecendo a mistura que faz Johnny Hooker existir, que em muitos momentos remete ao ícone Ney Matogrosso.
Veja a entrevista completa com Johnny Hooker:
Vindo de uma região extremamente rica em cultura artística, Johnny Hooker tem a noção de que, ainda que passe por dificuldades na estrada, é um privilegiado no sentido de ter conseguido seu espaço. Mas isso poderia ser diferente e esse mesmo espaço poderia ser bem maior.
“Eu acho que falta mais pluralidade, diversidade no mainstream brasileiro, sabe? E eu acho que isso é uma série de fatores que são estruturais”.
Na avaliação do artista, a música feita pelos artistas que estão tentando conquistar seu espaço e até mesmo aqueles que já conquistaram, mas ainda brigam por mais destaque, não deve em nada para o que ouvíamos no passado.
“Não deve em nada, em qualidade, em musicalidade, em conceitualidade, para a música dos anos de 90, 80, 70, 60. A música da minha geração, digo isso dos outros artistas também da minha geração que eu amo, que são geniais e talentosíssimos, é uma música muito moderna, é uma das músicas mais plurais e acho que mais chiques do mundo, a música brasileira”.
O cantor entende que também faz parte dessa valorização da nossa música, que haja interesse não só por parte de produtores, investidores e “gente grande”, mas também de quem mais importa: o público.
“É muito importante que o público esteja sempre presente, compartilhando, divulgando, abrindo a cabeça para outras coisas que não são só as coisas que tocam na rádio ou que estão na TV. Buscando a música brasileira nova que está sendo feita”.









