Em tempos de intolerância religiosa, o melhor a fazer é só seguir o seu próprio caminho, quebrando barreiras. É dessa forma que podemos considerar o som da cantora carioca Sonja, que trouxe um disco marcado pela espiritualidade e um conceito musical único para o tempo atual. Recentemente, ela lançou uma música extra do projeto, chamada Better Days, que foi escrita com base na carta da morte do tarô

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Foto: Julia Assis/Divulgação.

Com influências diretas do blues e do soul, a carioca por si só já caminha num rumo diferente do “popular” que se ouve atualmente. E talvez seja esse mais um diferencial da artista, que, em 2023, lançou seu segundo álbum autoral, Rainha de Copas

A cantora, ex-The X Factor, se destaca por ser intensa e por trazer um projeto que teve como missão a cura: “Rainha de Copas” foi feito para curar relações abusivas, em processos internos de superação e a reconexão com a espiritualidade. 

Cada letra do álbum é inspirada, além de em uma experiência pessoal, em uma carta de tarô. “Better Days” traz a Morte. A música fala sobre o fim e, consequentemente, o recomeço. Mas o blues não é só sobre aquele tipo de morte que automaticamente pensamos.

“Essa última música, fala sobre essa coisa de a gente achar que aquilo ali é uma morte para a gente, apesar do que aconteceu, a sensação de morte, de um fim. Mas na verdade, se a gente pára para olhar, todo fim apresenta uma possibilidade de recomeço. Essa música representa isso”. 

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Foto: Divulgação.

Segundo Sonja, assim como “Better Days”, várias músicas do álbum também tratam sobre as possibilidades de renascer depois da morte. 

“Todo o álbum conta uma jornada pessoal sobre o uso abusivo de drogas, ao mesmo tempo que conta sobre relacionamentos abusivos, então as drogas e as pessoas em relacionamentos abusivos se confundem a todo momento no álbum, então ele vem trazendo possibilidades, vem costurando situações difíceis que tiveram que terminar. Que eu não quis que terminasse, mas a vida fez com que terminassem. Naquele momento eu acha que era o fim, que a dor era insuportável e que aquilo acabou, que eu precisava daquilo, mas quando as coisas foram se acalmando, eu vi que aquela “morte”, aquele fim de tantos ciclos que se fecharam, foram somente para que outras coisas pudessem vir”. 

Falar de morte pode ser até um tabu para muita gente, mas quando se enxerga por outro prisma, isso se transforma e se ressignifica.

“A morte é importante, porque alguma coisa precisa renascer e a gente continua insistindo no erro, em coisas que não têm mais futuro, e aí vem a morte de fato e rompe com aquilo para que a gente possa experimentar coisas novas e caminhos novos, para que outras coisas possam aparecer”. 

Ouça o álbum na íntegra:

Espiritualidade e mensagem

Sonja carrega consigo uma energia de artista que não se prende aos estigmas e aos “títulos” que pode vir a receber. Na espiritualidade, também. 

“Acho que acabou acontecendo mais do que isso seja de fato uma pauta. Eu sou judia de nascença, me encontrei na umbanda e esse trabalho todo que eu tenho do álbum Rainha de Copas é baseado numa tiragem de tarô de uma cigana, que é uma entidade da Umbanda que me acompanha por muito tempo. Não tinha como fazer esse trabalho sem falar da espiritualidade”. 

Segundo a cantora, a espiritualidade faz parte da história dela, e não teria como ser diferente num trabalho artístico. Em tempos de intolerância religiosa, é também uma mensagem.

“Já vem de muito tempo. Essa coisa da religião vir no trabalho aconteceu de forma muito natural, nunca aconteceu de forma pensada, que eu quisesse botar sobre a intolerância religiosa, mas fico feliz disso fazer parte do trabalho porque querendo ou não acaba sendo uma pauta, acaba chamando a atenção das pessoas para ter um outro olhar sobre essa questão da intolerância religiosa”. 

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Foto: Julia Assis/Divulgação.

Contra a maré, a favor de quem é

Inspirada em Ney Matogrosso, Rita Lee, Sharon Jones & The Dap-Kings, John Coltrane, Tim Maia, The Suffers e entre outros ícones na música, Sonja não rotula suas composições a um gênero musical específico.

Mas ela sabe o que quer: quebrar as barreiras do “seletivo” para as pitadas de blues. Apesar disso, também tem consciência de que “remar contra a maré” é mais tortuoso. 

“É bem difícil, até porque eu não rotulo meu trabalho, mas ele tem como principal influência o blues, que tem um nicho muito pequeno no Rio de Janeiro, é maior em outros lugares como Sul e São Paulo. Mas no Brasil em geral é uma coisa difícil de prosperar, só que eu não consigo fazer algo só porque aquele algo está em alta. Embora eu goste muito de várias coisas que estão na moda, que estão a frente, que tá vendendo, mas aquilo não é uma coisa que faz parte da minha musicalidade, da minha arte”. 

A cantora revela que já percebeu muitas barreiras em relação ao estilo musical e que, durante o período de carreira, já viu várias portas se fecharem por não cantar algo “vendável”.

“Não pareço uma pessoa moldável. É difícil furar uma bolha e alcançar espaços. Mas trabalho com o pensamento de que essa bolha vai ser furada e que vou conseguir chegar a mais pessoas, aos pouquinhos, num trabalho de formiguinha, vamos conseguindo. É difícil, mas eu já sabia que seria difícil, então o negócio é continuar cantando e fazendo música, sendo fiel ao que está em mim”.

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Foto: Julia Assis/Divulgação.

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Conheça Sonja, cantora fã de Ney Matogrosso e Rita Lee que lançou disco inspirado no tarô

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