“Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” talvez poderia ser uma frase que identifique bem o caminho que Vannick Belchior resolveu escolher para sua vida profissional. Filha de um dos nomes mais importantes da música popular brasileira, ela decidiu seguir o rumo de Belchior e começar a carreira musical durante a pandemia. Agora busca por um espaço carregando consigo uma bagagem e tanto.

No começo de agosto, Vannick lançou um EP. Das Coisas Que Aprendi Nos Discos trouxe músicas importantes e de sucesso do repertório do pai. Em entrevista à Banda B, a cantora disse que a escolha não foi por acaso: ela quer fazer de Belchior o seu compositor.
“Nesse primeiro momento, estou com esse projeto e quero explorar as obras do meu pai. Quero fazer do meu pai o meu compositor. Quero explorar também obras que não são tão exploradas, mas quero dar esse toque de contemporaneidade. Há uma grande identificação em minha essência e no meu ar profissional também”.

Aos 25 anos, a filha caçula de Belchior inicia a carreira exatamente com a mesma idade em que seu pai começou. Vannick contou que, embora a relação com Belchior foi mais no período da infância, a essência estava ali. Foi só o tempo para entender que o caminho da música não tinha volta.
“Sempre fui muito apaixonada por música, principalmente pela MPB. Desde criança gosto muito de cantar, meu sonho de criança era ser cantora, mas fui vivendo meus caminhos e acreditando que era um sonho infantil. Nos meus processos de vida, a música me escolheu. Bateu à minha porta não só pela energia e o trabalho profissional do meu pai, como também de outras pessoas que me descobriram musicalmente”.
Vannick contou que Belchior dizia à sua mãe que ela seria cantora. A convivência com o pai também lhe deu a segurança de entender um pouco do que a gente não vê, os bastidores da música.
“Tudo que vivi com ele me preparou para viver o meu hoje na música profissionalmente. Meu pai conversava com minha mãe e dizia que eu seria cantora e daria continuidade ao trabalho dele. Ele realmente ficava muito sensível, era muito sensível artisticamente falando e se emocionou muito quando me ouviu cantar pela primeira vez. Passou a investir em mim, me levando aos shows para que eu pudesse aprender com ele. Ver a reação do público. Essas memórias que ficaram em relação ao meu pai foram de suma importância para eu viver o meu caminho hoje e trazer certo amadurecimento que veio comigo”.

Dando vida à obra do pai
Antes do lançamento do novo EP, Vannick lançou, no ano passado, a primeira música que seu pai a viu cantando. “Foi quando descobri que era do meu pai, quando ouvi na rádio, um medley de Divina Comédia Humana, com Medo de Avião”.
Para o EP lançado no começo de agosto, Vannick selecionou a dedo hits que são impossíveis de não se reconhecer pelo título: Como nossos pais, Sujeito de Sorte, Apenas Um Rapaz Latino Americano, Galos, Noites e Quintais, Paralelas e De Primeira Grandeza.
A cantora contou que buscou, nesse primeiro EP, as músicas que mais se identificava na obra de Belchior. Mas também pensou sobre como seu pai pensaria.
“Não foi tão fácil, mas em breve virão outros trabalhos, então decidi ir por partes. São músicas que, se meu pai estivesse me ajudando a escolher, ele iria opinar por elas. Como Nossos Pais, Galos Noites e Quintais, são músicas que acho que meu pai gostaria que eu cantasse”.
Além de escolher músicas conhecidíssimas, Vannick também pensou em algo que seu pai sentiria muita felicidade se visse acontecer: a renovação das canções.
“Pensei também nessa contemporaneidade, de dar esse tom de repaginar. Porque meu pai mesmo gostava de mudar os arranjos das músicas. Ele gostava disso”.
Embora ainda planeje os próximos lançamentos, Vannick adiantou à Banda B que planeja usar as músicas que foram encontradas de Belchior que nunca foram gravadas. Talvez seja uma forma de fazer renascer o ícone.
“Com certeza penso nisso, demais. Quero explorar essas canções. Não vai deixar de ser uma parceria minha com ele, dar voz a ideais, contextos, sentimentos e emoções que ele colocou no papel e não teve como dar voz. Esse momento está mais perto do que longe, mas estou seguindo um passo de cada vez até que essas canções inéditas cheguem a minha voz”.

Desafios de ser Belchior
Ao mesmo tempo em que carregar o sobrenome Belchior traz toda a bagagem de enorme respeito que o cantor e compositor adquiriu, Vannick tem noção da responsabilidade e, acima disso tudo, do desafio que resolveu encarar. Mas, assim como seu pai era um sujeito forte e com opiniões coerentes, ela não tem medo.
“O ser humano tende muito a se comparar ou comparar os outros, principalmente quando são de uma mesma família, como eu e meu pai. É natural que as pessoas tendam a comparar […]. Mas eu prefiro seguir minha própria verdade, a força que tem no meu caminho”.
Apesar disso, o desafio que Vannick tem encontrado é justamente o das comparações. Mas não apenas como a comparação bate nela, como também como esse processo mede a credibilidade que as pessoas que lhe dão enquanto artista.
“Esse tem sido meu desafio. Quando o artista está começando, ele encontra muitos percalços, pessoas que acreditam e não acreditam. Quando ele caminha e tem as conquistas, que passa a ter credibilidade, é um movimento mais geral. Meu pai me abre muito as portas para que eu consiga galgar alguns espaços, mas também tem a outra parte que vem da comparação”.
Investindo em sua grande paixão, que é a MPB, Vannick se mostra também firme quando a opinião é o rumo que quer traçar para a carreira musical. Inspirada por grandes pilares da nossa música, como Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil, ela reforça que o gênero é o que lhe brilha os olhos. Por isso o trabalho do pai se faz tão importante como base para o repertório.
“Quero seguir com esse projeto [de Belchior ser o compositor]. Já que não tenho a oportunidade na matéria, quero fazer a arte dele viva. Com certeza, futuramente, quero continuar no viés da MPB, que é a minha paixão. Quero também conhecer novos compositores, dar voz a novos compositores e a MPB pede por isso. Penso isso a longo prazo”.
Como diria Belchior, se “Deus é brasileiro e anda do meu lado”, sem dúvida alguma a força de um repertório de um ícone, atrelada à voz potente e musicalidade, são pontos a favor de Vannick.
“Meu pai teve muita coragem de seguir o próprio caminho e optou por seguir o que o coração dele pedia, o que realmente a selvageria do ser dele foi como bússola. Essa talvez seja a característica que eu mais admiro do meu pai, a coragem e a autenticidade de ser quem ele era”. A trajetória de Vannick está só começando.
📲 O Google pode parar de mostrar o portal Banda B. Clique aqui para ver nossas notícias.