O que poderia ser o ponto final na trajetória de um trabalhador, Jobel Ferreira Martins, aos 61 anos, transformou em um novo começo. Após enfrentar três acidentes vasculares cerebrais (AVCs), uma fratura no fêmur e um longo processo de reabilitação física e emocional, ele encontrou no café — e na memória do pai — a força para continuar empreendendo, agora de um jeito mais gentil com o corpo e com a alma.

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Foto: Lucas Sarzi/Banda B.

Durante 15 anos, Jobel teve uma carreira sólida como vendedor na área de alimentos, com experiência internacional. Viajou pela Europa, visitou clientes e participou de grandes feiras.

Mas, em agosto de 2016, sua vida mudou drasticamente com a ocorrência de dois AVCs. Seis meses depois, já estava retomando a rotina, ainda em recuperação, mas com dificuldades motoras e de fala.

“Estava me recuperando, fazendo minha recuperação toda, mas com maiores dificuldades e tive que reaprender muita coisa, andar, falar, mesmo assim continuei. Vindo a pandemia, eu acabei ficando sem trabalho, e aí começando do zero novamente. E a partir desse zero novamente, eu tive que me reinventar mais uma vez”

lembra Jobel.

Com a crise econômica e as portas se fechando, ele tentou empreender com uma linha de queijos veganos, mas a instabilidade financeira e os desafios do mercado impediram o negócio de prosperar.

Foi quando surgiu a ideia de um café pequeno, simples, feito com as próprias mãos — quase como uma extensão do processo de cura.

“Idealizei um espaço menor, que é o café, onde praticamente 100%, 80% do café foi eu que criei, executei o serviço de pintura das paredes, do material utilizado, e eu acabei estando nesse processo. Durante esse processo tive o terceiro AVC. E esse terceiro AVC acabou me prendendo, parando mais uma vez, para poder trabalhar na minha recuperação”

conta o empreendedor.

Mesmo após um terceiro AVC e, mais recentemente, uma fratura no fêmur causada por um acidente doméstico, Jobel não deixou de lado o sonho de ver seu café de portas abertas. A inauguração, mesmo com limitações físicas e orçamentárias, aconteceu na última quinta-feira (24).

“Continuei com o trabalho no café. Inaugurei nesta quinta-feira, mesmo com toda a dificuldade, financeira e física. Como dizem, a Fênix ressurge das cinzas e o empreendedor nunca vai desistir, sempre vai estar ali lutando. Minha luta está sendo válida graças a Deus, que tem sido maravilhoso comigo”.

Orlando Café

O café se chama Orlando Café, uma homenagem ao pai, Orlando Herculano Martins, que era cafeicultor e transmitiu à família o amor pelo grão e pelo trabalho honesto.

“O nome vem em homenagem ao meu pai, até pela história da nossa família. Meu pai era cafeicultor, trabalhou com café, então pensei em homenageá-lo. É muito justa uma homenagem, pois ele adorava café. Uma maneira de mantê-lo na memória da gente sempre”

comenta Jobel.

Entre paredes pintadas com esforço próprio e memórias afetivas, o Café Orlando é mais do que um negócio: é um símbolo de resistência, afeto e reinvenção. Em cada xícara servida, Jobel entrega também sua história de superação.

O Orlando Café fica na Rua Simão Bolívar, 652, no bairro Alto da Glória, em Curitiba. O funcionamento é das 11h às 21h, de segunda a sexta-feira.

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Foto: Lucas Sarzi/Banda B.