Não é todo dia que dois pensadores incansáveis se reúnem e resolvem fazer um disco. Tanto essa afirmação é verdade, que no caso de Chico César e Zeca Baleiro levou mais de 30 anos para que o feito acontecesse. Nesta sexta-feira (8), os cantores chegam a Curitiba com uma estreia saborosa para o público: um show com gosto de amizade e reflexão. 

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Foto: Vange Miliet/Divulgação.

O Teatro Guaíra será o palco de estreia da turnê “Ao Arrepio da Lei”, que marca mais um encontro da parceria histórica de mais de três décadas entre Chico César e Zeca Baleiro. O show faz parte do lançamento do disco, que leva o mesmo nome e que foi lançado no dia 1 de março.

“Esse disco celebra uma parceria de 33 anos. Eu cheguei em 91 a São Paulo e um dos primeiros artistas que conheci foi o Chico, através de um grande amigo, que morreu no ano passado, Celso Borges, que era um grande entusiasta das nossas carreiras. Ele me disse que nós tínhamos tudo a ver e nada a ver. E estava certo. Houve uma grande afinidade, um grande respeito e uma troca muito rica, profissional e pessoal também. O disco celebra esse tempo largo de parceria, que se deu em outro nível, numa troca de experiências, pressões, sempre fui muito fã do Chico. É uma celebração dessa parceria, dessa amizade, de uma geração também porque somos dois artistas que surgiram nos anos 90, pós-rock, um novo momento cultural e musical do Brasil”

comenta Zeca Baleiro.

Chico César concorda com o amigo, mas reflete que o disco também vem como mensagem de uma geração que chegou de fora em São Paulo, nos anos 90, e foi se estabelecendo pouco a pouco, tocando em pequenos lugares, formando público. 

“Sendo questionado pela imprensa, pela crítica, pelos próprios colegas, e isso foi bom porque nos fortalecendo, porque nós também fomos questionando o ambiente, que nem sempre era amigável, mas também nem sempre era hostil. O disco poderia ter sido feito há muito tempo, mas foi feito agora numa condição atípica, de pandemia, e também de pandemônio político. O disco reflete isso, muitas canções trazem os dois temas, a pandemia e o pandemônio”

disse Chico César.

Como disse Chico, “Ao Arrepio da Lei” foi todo concebido durante a pandemia, e surgiu por acaso. Zeca Baleiro contou que nada foi planejado.

“Começamos sem saber muito bem aonde ia dar. A gente compôs poucas músicas ao longo do tempo que a gente se conhece, nenhuma muito representativa, canções ocasionais, sem nenhum grande sucesso. Mas durante a pandemia, por alguma razão que eu desconheço,a gente começou a se comunicar e trocar trechos de canções e ideias de refrões e as coisas foram surgindo. Quando a gente viu, já tinha mais de 20 canções prontas, e aí surgiu o desejo de fazer o disco. Mas foi meio casual, natural, orgânico mesmo o processo. Não foi um disco pensado, ele foi sendo realizado e assim nasceu”

avaliou Zeca.

Chico contou que compor à distância, durante a pandemia, permitiu “preservar a loucura criativa de cada um”. Isso porque, afastados, cada um teve mais tempo de elaborar suas próprias ideias.

“Porque até você ter algo para mandar para o outro, você já elaborou. É diferente de estar criando junto e tudo acontece junto com o outro o tempo inteiro. Isso deu mais liberdade, e ao mesmo tempo permitiu que cada um de nós pudesse elaborar um pouco mais a própria ideia, seja de letra, de levada, de melodia. Acho que isso resultou em canções muito maduras, porque a loucura criativa de cada um já ia mais amadurecida para o outro e isso exigia respostas mais maduras do outro, que demorava mais contemplando e trabalhando aquilo que tinha sido trabalhado anteriormente”

explicou Chico César.

Uma nova safra de mais de 20 canções marca a retomada dessa parceria, inaugurada há mais de 30 anos. As novas composições musicais começaram a nascer em 2021 e o álbum foi finalizado em 2023, com lançamento em 2024. Os destaques são “Respira”, “Lovers”, Verão” e “Beije-me Antes”. O disco tem reggaes, baladas, xotes e rocks.

Pra emocionar… e refletir!

Zeca contou que a escolha de repertório para a turnê foi o mais difícil do processo. Mas também confidenciou que os ensaios estão sendo divertidos. 

“Porque a gente se diverte muito, a banda é boa, com amigos e novos amigos, mas a gente já tem uma certa trajetória, alguns sucessos da carreira. A matemática que a gente conseguiu fazer foi tocar algumas músicas do disco novo, apresentar o disco novo, e na sequência ir alternando sucessos e algumas músicas talvez menos desconhecidas do nosso repertório, mas as mais conhecidas não podem ficar de fora. Esse processo é difícil e às vezes sofrido, mas o show tem que ser agradável, então tentamos equilibrar, tá bonito”

adiantou Zeca Baleiro.

Chico César disse ter a noção de que o trabalho feito por ele e por Zeca Baleiro nem sempre é “popular”. Mas também essa preocupação não se torna algo que lhes tire o sono.

“Nós nunca fomos fáceis oferecidos, nunca quisemos conquistar de imediato o público, sempre quisemos levar o público para outro lugar, trazer o público para as nossas inquietações. Por isso o roteiro do disco parte de músicas do disco, porque é fundamental tocar canções do disco num show que lança o disco, é óbvio, mas nem sempre acontece, e aí trazemos canções de cada um, mas isso vem depois”

refletiu Chico César.

Música como mensagem

Além de Curitiba, a turnê vai percorrer as principais capitais do país como Recife, Brasília, Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A principal mensagem que os cantores querem passar, além de fazer o público refletir por si só, é de amizade.

“A principal mensagem é a mensagem da amizade, de uma amizade que sobrevive há 30 anos de discussões, críticas, autocríticas, trabalhos, rusgas, apaziguamentos, é a mensagem da amizade primeiro. Mas nós temos aí também uma mensagem de que é possível. Queremos que um jovem, dois ou 200 jovens compositores vejam o show e pensem ‘poxa, eles se reuniram quase 30 anos atrás e começaram a criar um negócio a partir de uma amizade’, cada um trazendo sua experiência do seu lugar e mostrar que isso é possível. nunca nada está definido e você não pode participar daquilo, você pode participar, é o seu lugar e você pode entrar e fazer parte dessa festa estética”

disse Chico. 

Na visão de Zeca, a leitura do show o espectador vai criar, mas a dupla promete trazer músicas que permitam refletir.

“Essa leitura que o público faz do que a gente está fazendo é muito pessoal, muito subjetiva, depende do próprio repertório de quem está assistindo ao show. Uma música pode sensibilizar mais, comover mais, a outra pode divertir ou fazer chorar. Isso depende do repertório de cada pessoa que está na plateia. O que a gente espera é que as canções emocionem, toquem as pessoas. Tem canções de todo tipo no show. Esperamos que se divirtam, se emocionem, porque música serve para isso”

concluiu Zeca Baleiro. 
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Foto: Vange Miliet/Divulgação.

Serviço:

Chico César e Zeca Baleiro em Curitiba
Quando: sexta-feira, 8 de março de 2024
Onde: Teatro Guaíra (Rua XV de novembro, 971 – Centro – Curitiba)
Horário: abertura do teatro às 20h / início do show às 21h
Quanto: ingressos a partir de R$ 150 + taxa adm. Venda pelo Disk-Ingressos.

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Chico César e Zeca Baleiro chegam a Curitiba com show inedito que celebra amizade e músicas para refletir

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