“Esse show tem uma curva que vai do mais sombrio ao mais solar, então tem que ir pra ver”. É assim que Rodrigo Amarante define seu novo show, que chega a Curitiba neste sábado (17). A turnê leva o nome do segundo disco solo do cantor, Drama, que tem uma pegada teatral e permitiu ao autor abrir as portas de seu universo particular.

Foto: Vera Marmelo/Divulgação.

Em entrevista exclusiva à Banda B, Rodrigo Amarante contou que o disco, lançado no ano passado, era para ser feito ao vivo, com banda tocando junto em estúdio. Mas os planos mudaram com a pandemia.

“Tive que mudar de planos e tive que fazer a segunda metade um pouco mais como fiz o Cavalo, meu primeiro disco solo: eu mesmo em casa gravando as coisas. Isso também influenciou uma coisa estética, de eu acabar indo na direção de fazer arranjos mais mirabolantes, mais fantásticos e acabou uma coisa mais teatral”. 

Da mesma forma que para praticamente todos nós, a pandemia também trouxe inspiração para o trabalho. Ainda que, como ressalta Rodrigo Amarante, não possamos considerar o que vivemos nesse período como algo “positivo”.

“Para todo mundo essa situação horrível levou a gente a enxergar a vida de outra forma, rever algumas coisas. Então foi uma experiência ruim, mas transcendental de alguma forma. Não acho que eu seja uma exceção”. 

Foto: Eliot Lee Hazel/Divulgação.

O disco lançado em julho de 2021 veio após oito anos do lançamento de Cavalo, o primeiro álbum solo de Rodrigo Amarante. Evitando muitas comparações, ele disse entender que existe uma conexão entre um e outro. 

“Mudanças radicais não são mais importantes do que mudanças sutis. Comparar é para os outros, não é pra mim. São discos bem diferentes, apesar que sou eu ao mesmo tempo, estou dentro dos dois. Mas se eu posso dizer alguma coisa, é que eu sinto que há uma continuação no sentido que no Cavalo era o estranhamento de pela primeira vez ver meu nome numa obra, poder separar meu nome e ver criar uma identidade refletida. No Drama é mais ou menos eu rindo disso, dessa tentativa um pouco ridícula de buscar  uma voz, de criar uma voz, de achar que há qualquer forma de unidade na voz, em quem escreve ou na minha própria. Drama é mais uma coisa de abraçar, ou tentar lembrar, inventar os personagens que eu fui e sou, uma coisa menos coesa”. 

Apesar de dizer isso, Rodrigo reforça que a renovação de sua própria opinião é constante. “Falo isso hoje e daqui um ano posso falar uma coisa totalmente diferente. Por isso acho mais legal que cada um tome suas próprias conclusões, prefiro deixar que os outros busquem do que aprender a repetir o que estou dizendo”.

Os clipes lançados do novo projeto foram bem elogiados pela crítica. A paixão de Rodrigo Amarante pelo cinema está totalmente imposta no trabalho, que teve participação dele – quase que exclusivamente – do começo ao fim.

“Eu adoro e sinto que escrevo músicas, às vezes, querendo ser cineasta, contando histórias através de imagens. Eu adoro, ainda mais nesse disco que tem essa coisa de teatro, com esse nome e essa onda, acho que teve mais a ver ainda. Nesse eu fiz inclusive um trailer para todo esse lance ficar com pinta de história de teatro ou de cinema, de encenação”. 

Rodrigo Amarante disse gostar de misturar em seu trabalho a pegada da música com o cinema, com o visual. 

“Gosto muito, trabalhei com cinema experimental, teatro na faculdade, fui diretor musical de teatro. Então adoro a linguagem e é a oportunidade que eu tenho de estar na carreira solo de fazer o que eu quiser, não preciso perguntar pra ninguém, vou e faço”. 

Essência plural

Ao longo dos mais de 27 anos de carreira, Rodrigo Amarante experimentou de tudo que sentiu necessidade e curiosidade na música. Integrante da banda carioca Los Hermanos, ele também fez parte da banda Little Joy e dedicou boa parte da vida musical à Orquestra Imperial. 

Na carreira solo, Rodrigo disse poder fazer o que ele pensa, sem “precisar perguntar nada a ninguém”. Ao mesmo tempo, considera que sua essência não é apenas o “Rodrigo Amarante” solo, mas sim o contexto geral. 

“Essa coisa de essência é uma falácia. Não é porque eu estou sozinho, que não tenho que responder a ninguém, que estou fazendo algo mais genuíno. É mais concentrado, estou mais livre, não tenho que fazer acordo sobre ideias, mas ao mesmo tempo não tenho o diálogo que tive com as bandas”. 

Considerando ser um quebra-cabeça com inúmeras peças, que se formaram através das experiências que viveu, Amarante explica que tudo sempre teve um espaço importante para ele.

“São situações diferentes. Precisei fazer parte de tudo que fiz para poder chegar onde cheguei no sentido da fala. Não tem melhor ou pior. Decido amar aquilo que tenho, então tá tudo certo”. 

Foto: Julia Brokaw/Divulgação.

Show em Curitiba

Poder sair em turnê após o momento de isolamento que vivemos, para Amarante, é uma grande realização. Ele reforçou que a música tem grande poder curativo e, agora, vem com ainda mais força. Para o artista, a música e o palco – no sentido de compartilhar o que faz com os colegas de banda – são grandes remédios.

“Eu acho que o papel da música é esse mesmo, e não só no sentido individual de você ouvir a música e sentir que aquilo está reverberando de uma forma curativa […]. Acho que a pandemia exacerbou isso, não só da música, mas da comunhão de as pessoas estarem juntas, e a música faz a gente se mexer ao mesmo tempo, o que é uma coisa um pouco didática de como a gente é um organismo só. Pra mim, poder voltar a tocar com a banda, fazer show, é uma coisa que me devolve a sanidade, super importante, até para entender para onde eu vou em seguida”. 

Mesmo sendo fã e leitor de Paulo Leminski, guardando boas histórias do que viveu em Curitiba, estar na capital paranaense não lhe gera expectativas, mas sim esperanças. Rodrigo Amarante reforça que prefere “esperar que as pessoas venham e o resto é surpresa”. 

“Imagina-se que haja uma expectativa diferente para cada show, mas, para ser sincero, não vejo sentido em criar expectativa em particular, porque a surpresa é que é a beleza. Não temos como controlar nada. Vou de coração aberto e o que tiver que vir na minha direção, vai vir”.

Foto: Vera Marmelo/Divulgação.

Sobre o show, Rodrigo adianta que não tem cenário e sim música. “É show de música, nem fico muito querendo fazer pirotecnia para agregar valor […]. Não acho que um show tenha que ser pra cima ou tenha que ter um cenário, fazer todo mundo dançar, para ser bom. Tem várias coisas lindas que não são assim, que são emocionais. Esse show tem uma curva que vai do mais sombrio ao mais solar, então tem que ir pra ver”. 

O show de Rodrigo Amarante em Curitiba vai ser no sábado, na Ópera de Arame. Os ingressos custam a partir de R$ 80 e a venda é feita pelo Disk-Ingressos.

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‘Vai do sombrio ao mais solar’, diz Rodrigo Amarante sobre show que traz a Curitiba neste sábado

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