Karina Souza e Marcos Souza lançam durante a 40ª Oficina de Música de Curitiba o álbum “Chico Mário em Todo Canto” com produção de Ricardo Petraca e show com a participação de Vina Lacerda. (Foto: Reprodução)

O legado de Francisco Mário de Figueiredo Souza (1948-1988) para a história e a consolidação da música brasileira é incontestável. Reconhecido artisticamente por Chico Mário, o artista voltou aos holofotes da imprensa nacional em 2018, a partir das comemorações dos seus 70 anos de nascimento. 

Um dos precurssores do crowdfunding no Brasil e da música independente, o compositor, jornalista, crítico musical e instrumentista mineiro também é o responsável pela criação do método musical por cores voltado às crianças. 

A relação de Chico com a capital paranaense foi no final da década de 1970, quando ele ocupou o cargo de vice-presidente da APID (Associação dos Produtores de Discos Independentes) e, na ocasião, visitou Curitiba durante o encontro de produção cultural alternativa de discos independentes. O evento ocorreu quase 15 anos após a fundação do MAPA Movimento Atuação Paiol que tinha entre as suas prerrogativas a divulgação nacional da música do Paraná. 

Chico Mário lançou em 1982 o livro “Como fazer um disco independente”, um expoente à época sobre a produção musical além das amarras da indústria fonográfica, entre outras temáticas pertinentes ao âmbito.

Segundo o jornalista e pesquisador Aramis Milarch (1943-1992), em um artigo publicado originalmente em 13 de dezembro de 1986, Chico Mário não foi o primeiro produtor de um disco independente no país, mas o precursor em escrever um livro sobre a temática

Contudo, tal reconhecimento se deu a partir do LP “Revolta dos Palhaços” (Libertas/1980) onde ele consolidou o título de ser o pioneiro do crowdfunding no Brasil. Antes da produção do disco, Chico o vendeu previamente para 200 pessoas que possibilitaram a realização do projeto. 

Da sabedoria compartilhada entre ensinamentos e sonoridades, de sua discografia, três LPs são imprescindíveis em sua trajetória, sendo eles, lançados pela gravadora Libertas: “Terra” (1979),  “Julião, Verso e Viola” (1981) e “Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais” (1983).

Com os pés no chão

Terra” apresenta 13 faixas, entre o lado A e B. É o primeiro trabalho de Chico Mário em sua discografia e conta com as participações de Joyce Moreno, Quarteto em Cy, Antonio Adolfo, Airton Barbosa (1942-1980) e Chiquinho do Acordeom (1928-1993). 

A capa de “Terra” é uma realização do designer autodidata Hélcio Mário Noguchi (1938-2001), responsável por assinar a arte de discos icônicos, consolidando a sua criatividade ímpar na história da discografia, principalmente entre 1970 e 1980 contudo, vale ressaltar que, no âmbito publicitário, Noguchi também foi um dos principais nomes entre as décadas de 1950 e 1960.

Com uma viagem poética em alusão às belezas naturais de Minas Gerais, “Terra” é um divisor na história de Chico Mário. Tanto que, foi lançado no México e ainda, com ressalvas repletas de elogios por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

De Minas à Pernambuco

Item de colecionador, “Julião, Verso e Viola” (Libertas/1981), é marcado pelo encontro da viola de Chico e os cordéis do político pernambucano e líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião (1915-1999). Vetado pela censura, o LP teve a – lastimável – tiragem de apenas mil cópias. Sendo que 500 foram doados à época para levantar fundos para a Juventude do PDT. 

Da esquerda à direita: Francisco Julião e Francisco Mário durante a gravação do LP no estúdio Sonoviso, comandado por Toninho Barbosa (Créditos: Maria Nakano/Acervo Família Souza).

Marcado pelas tensões entre a liberdade artística, política e censura moral, “Julião, Verso e Viola” traz à contracapa do LP o texto assinado pelo sociólogo e ativista dos direitos humanos, Betinho (1935-1997) – irmão de Chico – e deixa às claras a mensurabilidade de todo o contexto.  

O encontro entre Chico e Julião foi uma articulação do próprio Betinho quando esteve com o pernambucano durante o exílio no México. Ao ter acesso aos versos, Betinho sugeriu que o seu irmão seria pontual para musicar. De volta ao Brasil, com a promulgação da Lei da Anistia, realizou o encontro para gravação do LP.

Disponível pelo SoundCloud, “Julião, Verso e Viola” apresenta as seguintes canções: “Os Direitos da Mulher“, “O Sindocato é a Estrela” e “Por que Sou Nacionalista“. 

Consagração instrumental

Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais” (1983) é o disco onde Chico Mário elevou a potência da música instrumental brasileira. Ao lado de Francisco Julião, após uma temporada de sucesso no México, onde o chorinho e o baião foram aclamados em alto e bom tom, quando retornaram ao Brasil, Chico faz do disco um recorte imprescindível na história da música instrumental.

Eleito como um dos melhores daquele ano, Chico recebeu o troféu Chiquinha Gonzaga – premiação criada pela Associação dos Produtores Independente de Discos e Fitas do Estado do Rio de Janeiro para promover e estimular a produção de discos independentes.

Com 12 músicas, entre os destaques de “Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais“, a faixa que encerra o LP, traz uma canção dedicada ao pai de Chico, “Saudade do Meu Pai (À Henrique José de Souza)“. Companheiro inseparável de Maria da Conceição, a Dona Maria, tornou-se um personagem exitoso pelas cartas do Henfil irmão de Chico – no O Pasquim e Isto É.

Não bastasse o reconhecimento de “Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais“, paralelamente, Chico também lança o livro de poesias “Painel Brasileiro” (Libertas/1983), com a capa do ilustrador paranaense Elifas Andreato (1946-2022), fotografia de Fernando Carvalho e as participações de célebres nomes da música instrumental brasileira, entre eles Rafael Rabello (1962-1995), Nivaldo Ornelas, Zeca Assumpção, Antonio Adolfo e Afonso Machado

O conjunto da obra de Chico Mário, de longe, é uma necessidade para o entendimento da atual cena da música brasileira que vive a sua esquizofrenia baseada em números e olvida um hiato sobre o contexto histórico da sua essência artística. 

Memória viva

Imprescindível, filmes como “Três Irmãos de Sangue” (2006), com a direção de Ângela Patrícia Reiniger e Chico Mário – A Melodia da Liberdade (2020) com a direção de Silvio Tendler, fazem uma rica contribuição para a memória musical do mineiro, bem como à ressignificação da própria história familiar de Chico, Bentinho e Henfil

Chico Mário faleceu precocemente, aos 39 anos. Assim como a mãe, ele também foi vítima da hemofilia. Mas a causa de sua morte foi ocasionada em dezembro de 1986, quando soube que contraiu o vírus da AIDS, contaminado por uma transfusão de sangue.

Após o falecimento de Chico Mário, sua esposa, a produtora, Nívia Souza, suas filhas Ana, Karina Souza e o seu filho mais velho, Marcos Souza, lançaram em vinil, os projetos póstumos: “Suite Brasil” (1987) e “Dança do Mar” (1988).

A arte do encontro

Da esquerda à direita: o pianista Marcos Souza e a cantora Karina Souza. (Foto: Reprodução/Guia Curitiba)

35 anos após a partida de Chico Mário, a herança artística deixada pelo artista se faz presente com o show de lançamento do álbum “Chico Mário em Todo Canto” (Marcos Pereira de Figueiredo Souza/2022).

A 40ª Oficina de Música de Curitiba reúne em 04 de fevereiro, no palco Teatro Cleon Jacques, a homenagem dos primogênitos de Chico Mário: a cantora Karina Souza e o pianista Marcos Souza, com a participação especial do percussionista Vina Lacerda, a partir das 19h30, com a entrada gratuita. 

Ao longo das dez faixas, “Chico Mário em Todo Canto” traz a produção musical de Ricardo Petraca e a capa por Roberta Perozza. O álbum é fruto de uma série de shows realizados pelos irmãos a partir de 2020 e reúnem algumas das principais músicas que resplandecem à releitura contemporânea de Karina e Marcos, sem esvaecer a primazia e o legado inquestionável de Chico Mário para a música.  

Pelo site do Instituto Chico Mário é possível acessar as cifras do artista em PDF. Confira aqui.

Serviço: Lançamento do CD “Chico Mário em Todo Canto” de Karina Marcos Souza
Quando: 04 de fevereiro (sábado)
Horário: 19h30
Local: Teatro Cleon Jacques
Endereço: Rua Mateus Leme, 4700 – São Lourenço
Entrada gratuita

Bibliografia
SOUZA, Nívia. Francisco Mário de Figueiredo Souza. 2020. Disponível em http://www.institutochicomario.org.br/sobre-chico-mario/. Acesso em: 24 de jan. 2023.

MILARCH, Aramis. Chico diz como se faz um elepê independente. 1986. Disponível em: https://www.millarch.org/artigo/chico-diz-como-se-faz-um-elepe-independente. Acesso em: 24 jan. 2023.

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