Em Honey Boy, Otis (Noah Jupe), é um menino de 12 anos que ama a atuação. O pai, James (Shia LaBeouf), o acompanha de perto durante suas gravações, sendo também seu cuidador. O problema é que James não só é um homem atormentado por vícios, como também é péssimo pai. A grande surpresa é que na vida real Shia LaBeouf já foi Otis e agora interpreta seu próprio genitor, num filme que remonta uma história que outrora ficou encoberta, mas foi obrigada a ressurgir em forma de atuação. A arte às vezes serve pra essas coisas: transformar sofrimento em alegoria, fingir alguma verdade que doeria ainda mais se contada de outra forma, universalizar coisas subjetivas. 

Honey Boy (2020)Honey Boy (2020)

A ideia de escrever Honey Boy, segundo o próprio Shia, surgiu depois de ele ter sido preso por estar drogado em público em 2017. Na época, ele foi enviado a uma clínica de reabilitação e durante o tratamento descobriu que sofria de stress pós-traumático. No filme, a história começa assim, com Otis já adulto recontando, com muito custo, a relação problemática que ele mantinha na infância com o pai. Segundo a diretora Alma Har’el, o roteiro aborda cerca de 5% da violência e abuso sofridos por Shia. O intuito claramente não é o de chocar, mas de mostrar de maneira sensível uma relação perversa, mas perfeitamente possível entre pai e filho. Dramas familiares costumam ser intensos. No passado, já escrevi um texto sobre um outro filme com uma família amarga baseada numa história real, Eu, Tonya, que vocês podem conferir clicando aqui. É um clichê citar a famosa frase de Tolstoi no início de Anna Karenina, mas é verdade que toda família infeliz é infeliz à sua maneira. Para o público, grandes histórias. Para os personagens que as vivenciam, falta de sorte.

 

Honey Boy (2020)Honey Boy (2020)

Honey Boy é um filme que junta a inocência de uma criança com o desespero de um adulto que não sabe lidar com as dores de um passado que insiste no presente. É angustiante voltar a posição da criança vulnerável, mas o processo terapêutico é necessário para que se possa, enfim, sair dela e para que não se volte mais.O final da história é contado fora da sala de cinema: Shia Labeouf deu continuidade ao tratamento e hoje se mantém sóbrio, além de ter retomado a relação com o pai, com quem não falava há 7 anos.