“Se eu tivesse que voltar no tempo e escolher qual seria meu pai, mesmo sabendo do desfecho de cada um, eu escolheria o meu”. Assim resume a filha de Salvador Evangelista, copiloto assassinado durante o sequestro do voo que ajudava a conduzir, em 1988. Moradora de Curitiba, Wendy Evangelista estava na cidade quando o crime aconteceu, e resgata as lembranças agora com o lançamento do filme Sequestro do Voo 375, que estreia nesta quinta-feira (7). Veja o trailer do filme abaixo.

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Foto: Arquivo Pessoal.

Talvez você não lembre da história, ou até não tenha a conhecido (a depender da idade). Até porque o mercado audiovisual brasileiro demorou 35 anos para conseguir transformar em filme uma memória que marcou (e traumatizou) a crônica política e policial brasileira, com o sequestro de um voo comercial no dia 29 de setembro de 1988. 

O voo 375 da Vasp partiu de Porto Velho, em Rondônia, com destino ao Rio de Janeiro, com quatro escalas no caminho: Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte. No último trecho, entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, um dos passageiros, Raimundo Nonato Alves da Conceição, com um revólver calibre 32, anunciou o sequestro e ordenou ao piloto para desviar a rota para Brasília. O plano era jogar a aeronave contra o Palácio do Planalto e matar o presidente José Sarney.

Wendy, na época aos 7 anos, estava em Curitiba. A cidade é a terra natal dos avós paternos, por isso estava sempre na capital paranaense, revezando com o Rio, onde os pais moravam. 

“O que eu lembro, de fato, do dia do sequestro é que me jogavam de uma casa para a outra, a minha avó pediu para que eu fosse até a casa da vizinha. Então não acompanhei na TV nada do processo do sequestro, do que estava acontecendo, toda aquela angústia até que houvesse o pouso eu não acompanhei. Mas eu sabia que tinha algo errado. Conseguia fazer a leitura do ambiente de que algo não estava certo, até pela fisionomia das pessoas”. 

Wendy lembra que se deu conta de que alguma coisa realmente havia fugido do padrão quando, do nada, viu sua mãe chegando. 

“Ela não morava em Curitiba e chegou com a minha tia. Aí eu já sabia que tinha algo errado. Quando entrei no quarto, minha mãe falou que tinha que me contar uma coisa, eu fui tensa, mas enxerguei a mala do meu pai no canto e o mundo caiu. Travei, congelei, sei que eu demorei para começar a chorar. Não sei se chorei porque a ficha caiu ou se porque vi minha mãe chorando. Mas quando caí no pranto, automaticamente comecei a negar a informação. Depois de um tempo eu perguntei se para o meu aniversário ele voltaria. Ele sempre cumpriu nossos acordos, nossos combinados. Então isso é o que eu me lembro do dia”. 

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Sequestro do voo mobilizou muitas equipes policiais e avião quase foi abatido. Foto: Arquivo O Globo/Reprodução.

Revivendo o luto

O copiloto Salvador Evangelista estava num voo que não era o dele justamente para cumprir o combinado com a filha: estar no aniversário dela, que seria dali a cinco dias. Ele foi morto dentro da cabine, com um tiro na nuca, disparado pelo sequestrador.

A história do sequestro do voo da Vasp se tornou notícia praticamente em tempo real, na medida do possível pela tecnologia das emissoras na época. O piloto, Fernando Murilo de Lima e Silva, teve papel trivial para que a tragédia não se concretizasse, após executar um giro de 360°, mesmo desconhecendo se a aeronave poderia sustentar tal ousadia, e fazer com que o sequestrador perdesse o rumo.

Wendy disse que reviver essa história mexeu com várias pequenas e grandes feridas, mas também a fez curar parte disso.

“Dói muito, doeu assistir ao filme, a emoção que vem não é a melhor. Mas o saldo na balança é positivo porque eu vivi tanta coisa legal com meu pai, tanta coisa intensa, que também resgata ao longo desse processo. No set de filmagens eu resgatei coisas maravilhosas, foi como se eu atravessasse o túnel do tempo e conseguisse estar no lugar onde vivi minha infância, onde conquistei tantas memórias, voltei para aquele tempo”. 

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Toda ambientação foi retratada para dar ainda mais veracidade à história, que é baseada nos fatos reais. Foto: Divulgação.

Embora tenha sido consultada, junto com outros envolvidos, como o próprio piloto Murilo, a filha do copiloto não se envolveu no roteiro. Mas esteve diretamente próxima ao processo. 

“Passei a receber informações prontas e voltei a me envolver quando fui ao set de filmagens. O roteiro já estava praticamente pronto, eles já tinham começado a gravar. Me surpreendi quando entrei, com a fidelidade das coisas, mas eu sei que alguns comentários que eu fiz, um deles foi inserido no texto. Achei muito delicado, fiquei super feliz”. 

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Foto: Arquivo Pessoal.

Final feliz, mas dolorido

O comentário citado por Wendy diz respeito à mudança da escala que o pai, Salvador, conseguiu fazer para estar naquele voo e, então, poder cumprir o acordo de estar no aniversário dela. 

Acontece que, por estar naquele voo, ele acabou também traçando – ainda que sem sequer imaginar – seu fim. Por isso, a história que o Brasil vai poder assistir a partir de quinta-feira tem uma mistura de sensações, das mais distintas possíveis, para a filha.

“São duas visões completamente diferentes. A primeira, para o público, é um filme incrível que não deixa a desejar para todos os filmes da categoria que a gente assiste, norte-americanos. É intenso, mas com a cereja do bolo que é baseado em fatos reais. Não é 100% real, mas é baseado em fatos reais. É uma história de heroísmo, coragem e sucesso. Para o público em geral, é tensão do começo ao fim e alívio no final. Pra mim, vou no sentido oposto. É tensão e fim”. 

Wendy entende que seria injusto falar que não é uma história com final feliz. Mesmo tendo que crescer com a dor do luto e a falta do pai. 

“Se eu falar que não é uma história de sucesso é injusto. Mais de 100 pessoas estavam ali, estão aqui, carregam suas dores, suas cicatrizes, mas estão com a possibilidade de elaborá-las e receber ajuda de suas famílias nesse processo”. 

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Foto: Arquivo Pessoal.

Ressignificando a história

Moradora do Bairro Alto, em Curitiba, a filha de Salvador Evangelista chegou a ficar mais de dez anos sem pisar em um avião. O tempo se passou, ela se tornou psicóloga, e entendeu, com o nascimento dos filhos, que precisava resolver essa situação, essa ferida consigo mesma. Hoje, ela não só se curou, como vem ajudando a curar.

“Entendi que não podia tirar dos meus filhos a magia de estar num avião e o poder de ampliar as fronteiras, os lugares, as culturas. Fui atrás de tratar. Foi quando decidi que ia parar de me justificar. Resolvi estudar a respeito, que iria me dedicar a isso, me aprofundei, estudei fora, e falei que iria trabalhar com isso porque se eu consegui voltar a voar, qualquer um consegue. Comecei a dar conta de voar tanto que pegava voos para chegar aos cursos. Hoje trabalho com isso e tenho até dentro do programa uma linha de tratamento que voo com o paciente se for preciso”. 

Já sobre seu pai, Wendy traduz o sentimento de que, na época, muito se falou, mas pouco foi dito. Para ela, o grande herói da história foi o comandante Fernando Murilo, que inclusive se tornou padrinho da filha mais velha. Mas seu pai teve uma história magnífica até ali. 

“Foram 34 anos tão intensos, que só consigo comparar com uma estrela cadente, porque ele brilhou muito e tão intensamente, que sumiu por um momento e acabou. Mas aquele brilho ficou porque quem vê uma estrela cadente não esquece”. 

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Foto: Arquivo Pessoal.

Por ter nascido em família humilde, Salvador teve que literalmente voar atrás de seus objetivos e sonhos. Seus pais trabalharam muito para que ele conseguisse chegar à Força Aérea, onde começou. Mas ele retribuiu isso.

“Ele viveu intensamente. Tenho tanta memória com ele que não parece fazer sentido caber em oito anos. Acho que depois de todas as fases desse luto, chego ao ponto que enxergo aquele fim como o mais adequado. Se ele tinha que perder a vida, ele saiu em grande estilo: dentro do cockpit onde ele amava estar, cuidando de outras pessoas, num voo que não era dele e que ele tinha trocado a escala para estar comigo no meu aniversário. Esse era o meu pai”. 

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No filme, o piloto Murilo (à esquerda) e o copiloto Evangelista (à direita) são vividos pelos atores Danilo Grangheia e Cesar Mello. Foto: Divulgação.

Para a filha de Salvador Evangelista, ele não poderia estar em outro lugar e não teria como tudo acontecer diferente. Talvez a vontade de estar no aniversário tenha o feito mostrar algo bem maior à própria filha.

“Ele estava lá naquele lugar que ele lutou tanto para conquistar, e ele estava no céu, estava no ambiente que ele escolheu trabalhar, mas que também o fascinava. Ele entrou e saiu da vida em grande estilo. Se eu tivesse que voltar no tempo e escolher qual seria meu pai, mesmo sabendo do desfecho de cada um, eu escolheria o meu”.

Onde assistir ao filme?

O Sequestro do Voo 375 estreia nesta quinta-feira, em todos os cinemas do Brasil. Em Curitiba, uma das principais salas em cartaz é o Cineplus, no Shopping Jardim das Américas.

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Filha de copiloto morto em sequestro de avião mora em Curitiba; história que chocou o país virou filme

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