Após o presidente Jair Bolsonaro fazer propaganda da hidroxicloroquina no início dos sintomas do coronavírus e afirmar ter apresentado melhora por isso, novamente veio à tona o debate sobre o uso do medicamento, que já foi deixado de lado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e países da Europa e os Estados Unidos. O infectologista Jaime Rocha, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), refutou o uso do medicamento e lembrou que vários pacientes que o tomaram em casos leves foram internados ou morreram.

REUTERS/Yves Herman (Reprodução Agência Brasil)

 

 

“Não existe anita, ivermectina, cloroquina, vitamina D, zinco, azitromicina e qualquer outra coisa como prevenção ou para sintomas leves. A cloroquina não funciona para prevenção e aumenta risco de efeitos colaterais. Temos vários pacientes que tomaram hidroxicloroquina e morreram ou foram internados, mas quem advoga pelo medicamento não mostra estes dados”, disse Jaime Rocha, que atende diretamente pacientes com covid-19, em entrevista à Banda B na manhã desta quinta-feira (9).

O infectologista criticou ainda a politização do medicamento. “Ou você é a favor ou contra o presidente, mas isso não existe na ciência. Ou tem evidencia ou não tem. Quem defende, o faz com evidências ruins: ‘dei para dez e dez melhoraram, mas outros não deram para cem e cem melhoraram’. Em época de pandemia, temos mais de 200 milhões de cientistas agora no Brasil e, lamentavelmente, não estão ouvindo a opinião técnica sobre o tema”, ponderou.

Para o médico, há pessoas que fazem a propaganda de remédios sem dolo (intenção), mas outras não. “Isso não é feito com dolo pela maioria das pessoas, porque muitas não têm um preparo cientifico adequado e temos que tentar relevar elas. Agora há quem tem informação adequada e usa isso de forma política”, lamentou, lembrando que embora usada para tratamento de doenças com lúpus e artrite, no caso do coronavírus o risco de efeitos colaterais é maior por conta da inflamação causada pela doença.

Tratamento

Mas afinal, há algum tratamento? Jaime Rocha explica que para casos leves não. “O tratamento é sintomático para casos leves. Não existe qualquer remédio para a forma leve. As pessoas têm que entender que é uma doença com baixa letalidade e que a maior parte é assintomática ou leve. Temos que manter as medidas de uso máscara, distanciamento e higiene de mãos”, ponderou.

Já para casos graves, há alguns avanços. “O que se tem para pacientes graves é fazer o uso de corticoides, baseado em um estudo inglês em que a dexametasona reduziu a mortalidade. Também há estudos conclusivos sobre o benefício da heparina, que é um anticoagulante, mas para pacientes graves”, disse.

Outro medicamento que vem sendo receitado é a azitromicina, mas para o infectologista ela também não faz diferença em casos leves. “É um antibiótico. Não se faz prevenção de bactéria. Tem sido usado pelo efeito anti-inflamatório pulmonar, para quem tem doença pulmonar crônica grave, mas não há efeito de outra forma”, salientou.

Remdesivir

Por fim, Rocha comentou sobre o remédio remdesivir, que é apontado como promissor para reduzir o tempo de internamento de pacientes com coronavírus. “Estudos mostram que ele diminui um pouco o tempo permanência no hospital, mas não na mortalidade. É um remédio extremamente caro e que nem chegou no Brasil, com a produção ficando retida nos EUA”, concluiu.