Se no início de 2020 a perspectiva para os municípios da região metropolitana de Curitiba era de investimentos e alta arrecadação, com nove meses passados a realidade tornou-se outra: queda na economia e recursos emergenciais para a área da Saúde, devido à pandemia de coronavírus. Nenhuma cidade escapou ilesa, ao mesmo tempo em que todas tiveram a oportunidade de ter uma certeza: as gestões metropolitanas não podem mais trabalhar isoladamente.

Fazenda Rio Grande foi uma das cidades afetadas pela pandemia na RMC (Foto: Divulgação)

 

A Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba (Assomec) teve um papel fundamental para levar a união às cidades, por meio da criação do Fórum Metropolitano de Saúde. A ideia é justamente unificar as decisões relacionadas à pandemia, especialmente os decretos restritivos. Com a queda na arrecadação, a exemplo de abril e maio com 31,43% e 38,71% a menos de impostos de ICMS aos municípios, a Assomec também deverá ter um protagonismo na retomada econômica, que em alguns meses tende a acontecer, mesmo que lentamente.

O presidente da Assomec, Márcio Wozniack, que é prefeito de Fazenda Rio Grande e diretor da Associação dos Municípios do Paraná (AMP), espera que essa união se torne duradoura mesmo no período após a pandemia. “Nós prefeitos tivemos a felicidade de, na crise, construir uma união muito grande, que não acontecia há alguns anos. Isso foi muito importante para a gente aprender com os erros e acertos, tomando decisões em conjunto que surtiram o efeito esperado”, disse Wozniack.

Wozniack comentou bons resultados obtidos com o Fórum Metropolitano de Saúde (Foto: Divulgação)

 

Especialista em gestão urbana, a professora do departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), espera que, com a pandemia, os prefeitos aprendam a fazer valer o Estatuto da Metrópole, criado em 2015 e que prevê políticas públicas em comuns para os grandes centros urbanos. “As cidades precisam ter a obrigação de criar políticas conectadas e a pandemia fez com que os prefeitos prestassem a atenção na necessidade de uma ação conjunta. É hora de aproveitar a forma dura da aprendizagem para ter estratégias de ações supra municipais. Não cabe mais você não reformar uma ponte no limite de uma cidade por uma briga política”, salientou.

Dra Olga Lúcia Firkowski, especialista em região metropolitana. Foto: Arquivo Pessoal

Comec

Outro órgão que tem papel importante no planejamento da região metropolitana de Curitiba é a Comec (Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba), que viu a demanda na manutenção do transporte coletivo dobrar. Para o presidente do órgão, Gilson Santos, ficou claro neste período a necessidade de se reinventar. “Embora tenha evoluído, o poder público precisa rever várias questões. Há um abismo em relação com à iniciativa privada. Essa mudança vem acontecendo pela Assomec que mostrou união e isso se efetivou agora no combate à pandemia. As ações conjuntas não devem ficar restritas só nisso”, pontuou.

Gilson Santos, presidente da Comec, falou sobre os desafios em manter o transporte metropolitano integrado (Foto: Divulgação)

 

Neste sentido, a professora Olga Firkowski diz que o grande legado será possível se, de fato, as decisões passarem a ser tomadas em conjunto, independente da pandemia. “Eu espero que a pandemia tenha desencadeado essa visão sobre o território metropolitano e isso se desenvolva para as propostas neste ano eleitoral. Como os candidatos nos espaços metropolitanos vão usar essa aprendizagem de forma positiva? Falarão sobre isso em  campanha? Ou então, não vão usar e algumas coisas podem continuar como antes?”, questionou.

Voltando ao exemplo do transporte coletivo, o custo tem ficado cada vez mais caro, já que ano a ano a Comec sofre com uma queda no número de usuários. Em 2020, o sistema está operando para 55% dos passageiros em comparação ao ano passado, como efeito da pandemia. Por isso, o presidente da Comec valida as palavras da professora ao citar como exemplo a necessidade de se repensar o transporte metropolitano, que nada mais é uma prova viva de que os municípios não podem mais tomar decisões que não sejam em conjunto. “O transporte coletivo foi colocado como o vilão e tivemos que fazer algo rigoroso neste sentido. O uso da máscara, por exemplo, aconteceu no transporte coletivo. São 14 cidades com integração, não existe isso em outros países. Será necessário repensar a forma de custear o serviço de forma conjunta”, apontou Gilson Santos

Futuro

Ao pensar no futuro, o presidente da Assomec, Márcio Wozniack, crê em uma resiliência para se tratar muitos aspectos da administração de forma diferente. “Como será o perfil dos nossos alunos ano que vem? Eles vão estar confiantes em estudarem ou com medo? Esse aprendizado tem que ser uma constante, por isso a importância do gestor estar antenado nos protocolos de saúde para fazer as implantações necessárias”, disse, apontando que é possível enxergar coisas positivas na crise de Saúde que o mundo passa. “Você aprende a inovar com a crise. Tecnologia com profissionais de saúde, busca incansável de médicos para outras doenças. Vamos ser mais regrados na Saúde e tudo mais, além de um olhar com mais carinho ao Meio Ambiente.”, ponderou.

Lives de prefeitos e um contato mais próximo com os moradores da cidade também ficaram em evidência durante os meses de pandemia. Para Gilson Santos, da Comec, o contato próximo com o morador das cidades metropolitanas ficará ainda mais em evidência no futuro. “Cada vez mais vai diminuir mais o papel do intermediário na administração pública. Hoje a população pode falar diretamente com o gestor, por redes sociais que aproximam a população e é positiva na resposta às demandas. Gera praticidade e é importante”, ponderou.

A professora Olga Firkowski tem a mesma visão e pede a participação da sociedade para um crescimento ordenado e unificado da região metropolitana de Curitiba. “A sociedade de uma forma geral precisa entender que, em espaços metropolitanos, o olhar tem que ser diferente. É uma cidadania metropolitana e é preciso uma participação de todos. Vamos criar mecanismos, falar sobre isso, ter direitos metropolitanos”, concluiu.