O pai acusado de sequestrar os dois filhos pequenos com autorização falsa para os Estados Unidos se comunicou com os filhos mais velhos por meio de áudio do aplicativo WhatsApp. Em uma das falas, ele diz que ficará no exterior com as crianças até que a polícia o encontre e o mande de volta ao Brasil. “Eu não queria que fosse assim, queria voltar a cada três, seis meses. Mas não teve jeito com a sua mãe. Agora, vou ficar aqui até a polícia pegar, me prender e me mandar embora”, disse. O áudio do pai possui contradições sobre a situação legal da família nos Estados Unidos.

O caso, dado com exclusividade à Banda B, está sendo investigado por órgãos específicos de subtração de menores da Polícia Federal. A mãe Karoline Machado disse que está há nove meses sem ver os filhos, desde que os dois – de 10 e 12 anos – embarcaram para os Estados Unidos com o pai, utilizando um documento de autorização que, segundo ela, é falso.

Autorização

Cerca de 15 dias após o embarque, o pai das crianças fez um primeiro contato com um dos filhos mais velhos do casal. Ele gravou um áudio falando sobre a situação deles no exterior, em que conta detalhes do local onde estariam hospedados e cita uma autorização expedida por um juiz de São Paulo.

“Oi (…), a gente está com saudade, mas a internet aqui é diferente, só quem tem documentação consegue contato ou tem que achar um wi-fi que pegue. Mas (…), a gente está na Carolina do Norte, eu não contei para você e para o (…) porque fiquei com medo que vocês contassem para a sua mãe e ela poderia recorrer e a gente perdia a viagem. O juiz de São Paulo deu a autorização, nós passamos, pegamos e fomos. Aqui eu trabalho e recebo em dólar, na casa aqui, do dono, tem até piscina, as crianças estão até estudando. Infelizmente, não tinha acordo com a tua mãe, eu sei que para você parece que eu fiz coisa errada, loucura, mas eu to vendo o que é melhor para eles, a formação deles. Aí eu não podia fazer nada para eles, mas aqui a gente pode”, disse ele.

No mesmo áudio, o pai fala sobre o receio de ser preso. “Quando a poeira acalmar, eu dou um jeito de mandar eles, não sei. Me deixem em paz, eu tenho muita preocupação aqui. Poderia ter vindo de boa, voltado de boa em cada férias, mas eu não vou correr o risco de ir para a cadeia sendo que eu só quero dar o melhor para os meus filhos”, completou.

 

Mãe está há nove meses longe dos filhos. Foto: Banda B

 

Mãe nega

Embora o pai mencione uma autorização judicial para que conseguisse viajar com as crianças, a mãe nega que exista tal documento. “Essa autorização que ele menciona no áudio não existe. Tem uma fala onde ele diz que tem a guarda das crianças, isso também não existe. A nossa guarda é compartilhada desde o divórcio. Ele moveu três processos para que tivesse a guarda unilateral das crianças, mas perdeu dois e o terceiro será julgado em dezembro”, detalhou a mãe. “Até porque se tivesse a autorização, não seria necessária a minha assinatura no documento de embarque”, se atentou a mãe.

Para ela, o ex-marido tenta manipular as informações. “Ele tentou manipular as informações de que conseguiu para evitar que a gente aqui fosse atrás da verdade. Ele diz coisas que não condiz”, alegou a mãe.

Apoio

 

Foto: Reprodução/Banda B

 

Segundo informações da família, o pai conhece ‘um pessoal da igreja’ que mora nos Estados Unidos e que teria o incentivado a levar as crianças para lá.

Em um das conversas de WhatsApp que a Banda B teve acesso, a mãe recebe uma informação de que um pastor que mora no exterior estava à espera do pai das crianças.

“Então, fiquei sabendo ontem que o (…) estava de mala pronta para ir para lá… Disse que só estava esperando o pastor avisar… Que mora lá… Só que em São Paulo não passou”, diz a mensagem para Karoline.

“Preso”

Em um dos áudios que envia aos filhos mais velhos, o pai fala sobre o risco que corre de ser preso. Ele fala sobre as horas que passa trabalhando no dia e que devolveria as crianças se soubesse que alguém arcaria com os custos ‘de uma faculdade’.

“Eu ia vir e ficar só uns dias, mas olha está difícil. Eu gastei mais com autorização judicial do que gastos com passagem e hotel. As crianças estão estudando nas melhores escolas, aqui eu vou poder pagar uma faculdade para eles, estou encaminhando uma bolsa de estudos para o Samuel. Eu não vou correr o risco de voltar para o Brasil nas férias deles e ainda acabar sendo preso. Só põe um negócio na cabeça de vocês, eles estão bem, eu até mandaria eles de volta se alguém fosse pagar uma faculdade para eles, mas a melhor para eles é aqui. Pra mim não é fácil porque eu tenho que trabalhar muito, trabalho aqui cerca de 16 horas por dia, eu ganho bem, mas os gastos aqui são altos. Peço, pelo amor de Deus, que parem de mandar mensagem”, finaliza o pai.

Justiça

O processo sobre a denúncia gravíssima de substração internacional de menores tramita em uma Vara de Infância da região metropolitana de Curitiba. O crime está previsto no artigo 249 do Código Penal.

A Polícia Federal de Campinas, por onde aconteceu o embarque do pai e das crianças, também instaurou um inquérito policial para apurar o crime.