O encerramento de serviços de aluguel de patinetes e bicicletas e a reestruturação da atuação em algumas cidades, anunciados pela Grow nesta semana, dividiu usuários dos equipamentos. Em locais em que há outras empresas operantes, a reação foi pequena. Já onde a Grow –fusão da Yellow e Grin– detinha o monopólio do serviço, a resposta dos clientes foi maior.

(Foto: Yellow/Divulgação)

Mesmo com a descontinuidade em 14 cidades brasileiras –incluindo seis capitais–, a empresa segue operando em São Paulo, Rio de Janeiro e em Curitiba. Porém, mesmo nesses locais, as bicicletas foram temporariamente recolhidas; ficaram em atividade apenas as patinetes.

Alegando questões estratégicas, a empresa não divulga o número total de unidades retiradas de cada cidade. A Grow afirma que a decisão de parar o serviço foi motivada por um ajuste operacional e que não há previsão para retorno das bikes, que vão passar por um processo de checagem e verificação das condições de operação e segurança.

Na capital paranaense, onde o plano da prefeitura é dobrar os atuais 208 km de malha de vias para bicicletas até 2025, a Grow detinha o monopólio do serviço.

Na semana passada, a empresa recolheu centenas de bikes que estavam paradas para manutenção em um terreno aberto no bairro Rebouças, depois de reclamações de vizinhos.

“Entendo se a empresa estiver mesmo saindo, mas, como não temos outro sistema em Curitiba, perdemos todos”, afirma a ex-usuária Gheysa Prado, que desde 2012 utiliza a bicicleta como principal meio de transporte.

“Perde a cidade, que tende a ver pessoas mais fechadas nos seus próprios carros, aumentando barulho e poluição, e perde o cidadão que deixa de ter a oportunidade de experimentar novos meios ativos e baratos de se locomover”, completa ela.

Já em Porto Alegre, onde há outras empresas de aluguel de bicicleta e patinetes, os moradores ouvidos pela reportagem não demonstram sentir falta do serviço da Grow. Inicialmente, eram 400 bikes e 500 patinetes da empresa, mas o número oscilava, segundo a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

A reportagem circulou por bairros centrais da capital gaúcha atendidos pela empresa na quinta-feira (23) e não encontrou mais as bicicletas e patinetes amarelos espalhados.

Em compensação, os chamados “docks” do serviço concorrente BikePoa, que opera na cidade desde 2012, estavam vazios, com todas bikes alugadas. Os equipamentos laranjas do patrocinador podiam ser vistos em diferentes pontos da cidade, especialmente próximo à orla do rio Guaíba, lugar preferido para pedaladas por lazer.

De acordo com a EPTC, em novembro de 2019 foram feitas 91.931 viagens com as bicicletas do BikePoa, que opera com 410 bicicletas e 41 estações.

“Não usava a Yellow. Sempre usei o BikePoa para trajetos para casa, trabalho e academia”, disse Rafael Correa, 35, enquanto pedalava. “Estamos usando para lazer pela primeira vez, achei um pouco complicado alugar para duas pessoas”, contou Júlio César Prestes Saraiva, 51, acompanhado do filho Rafael, 14.

Autora do projeto Pensar a Cidade, site que trata de mobilidade urbana e planejamento, Bruna Fernanda Suptitz acredita que os moradores de Porto Alegre não incorporaram o conceito de micromobilidade promovido pela Grow.

“Micromobilidade não diz respeito ao trajeto de 12 km de casa até a faculdade, por exemplo. Micromobilidade é o trajeto curto da casa ao ponto de ônibus. Mas isso não foi incorporado e um dos motivos é o preço, que é caro em comparação ao valor da passagem de ônibus de estudante, que paga meia”, diz Suptitz.

O aluguel de patinetes da Grow custa R$ 3 para o desbloqueio e R$ 0,50 por cada minuto de uso; as bicicletas podiam ser alugadas a R$ 1 a cada dez minutos.

Também em Belo Horizonte, onde o serviço da empresa foi totalmente descontinuado, a retirada das patinetes elétricas das ruas parece não ter chamado a atenção, segundo pessoas ouvidas pela reportagem nesta sexta-feira (24). Na cidade, os aparelhos eram mais usados para lazer do que como meio de transporte.

O vendedor Thalles Cardoso, 22, diz que nunca usou uma, mas um colega dele contava com o equipamento para evitar pegar dois ônibus entre a casa, no bairro Caiçaras, e o trabalho, na Savassi. O trajeto pode levar 17 minutos de carro, mas aumenta para 37 com transporte público.

“Para ele valia muito a pena. Economizava uma passagem, porque o valor ficava menor, e economizava tempo. As outras pessoas que conheço usavam mais para lazer mesmo”, diz.

Segundo a Grow, entre janeiro e outubro de 2019 os usuários de patinetes e bicicletas em BH percorreram em torno de 102 mil km. O número de viagens de bicicleta teve crescimento de 6% ao mês, enquanto o de patinetes ficou em 10%.

Em setembro do ano passado, a capital mineira registrou o primeiro acidente fatal envolvendo uma patinete elétrica no país. O empresário Roberto Pinto Batista Júnior, 43, caiu enquanto trafegava em uma ciclovia com o equipamento, bateu a cabeça e teve traumatismo craniano.

Sem a Grow, o único sistema de bicicletas compartilhadas agora é o Bike BH, operado pela empresa Serttel Soluções em Mobilidade e Segurança Urbana, em parceria com a prefeitura. O serviço fica na Pampulha e tem cem bicicletas em 14 estações.

A administração da capital mineira também abriu dois chamamentos públicos em busca de empresas interessadas em implantação, operação e manutenção de compartilhamentos de bicicletas na cidade. As empresas podem enviar propostas até março.

Bem antes da descontinuidade do serviço nas 14 cidades, no Recife (PE), a experiência de compartilhamento de patinetes elétricos foi encerrada em agosto do ano passado e durou apenas seis meses.

A Grow comunicou que o fim da atuação na cidade se deu por problemas técnicos e operacionais. Em nota, afirmou que a situação ficou inviável economicamente.

Assim como em outras capitais, no Recife, os usuários deixavam o meio de transporte no local do destino após a utilização. Em alguns casos, os equipamentos eram danificados.

Os clientes que já tinham adquirido créditos tiveram os valores devolvidos por meio do cartão de crédito após o encerramento do serviço.