A página no Facebook da Universidade Federal do Paraná (UFPR) compartilhou, neste último sábado (27), um forte relato escrito por Camila Gonçalves Azeredo, enfermeira da UTI-Covid-19 do Hospital de Clínicas. Ela conta como sua vida acabou sendo transformada em poucos dias por conta da pandemia. “Faz uns dois meses que o medo da Covid-19 começou a tomar conta do meu pensamento”, é como começa seu ‘desabafo’.

Não só o hospital mudou, como toda sua vida. O filho pequeno, Joaquim, foi morar com a avó na tentativa de mantê-lo protegido do vírus. “[Ele] levou todos os brinquedos que já faziam parte da decoração bagunçada da casa”, contou ela. 

Ao longo do treinamento, a fim de se preparar para o que viria à frente, o medo e a preocupação tomavam conta da enfermeira, mas nada disso poderia abalar Camila a ponto de ela não conseguir exercer seu papel: estar na linha de frente do combate ao coronavírus. 

 

Foto: Reprodução/Facebook

 

Camila conta, também, que a realidade dentro do hospital já não é mais a mesma. Foi necessário mudar alguns hábitos como a ida ao banheiro ou quando pode ou não beber um copo d’água, por exemplo. Respirar um pouco depois de paramentado, quando se está revestido pelos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), virou um “luxo”. Segundo ela, estes equipamentos devem ser poupados, já que “é muito caro e o medo de faltar é grande”, como relata a enfermeira.

“A paramentação é quente, a máscara machuca, o óculos e o protetor facial embaçam. Não podemos tocar no rosto, não podemos beber água, nem ir ao banheiro ou sair tomar um fôlego ali fora”, conta a enfermeira.

O marido de Camila, Cris, a quem ela se refere, lhe deu fraldas para que não vá ao banheiro enquanto estiver trabalhando. 

As palavras da profissional carregam uma realidade difícil. Por isso, ela conclui o texto ressaltando suas saudades, aprendizados, e conselhos como: “Se cuidem muito, eu vou precisar muito de vocês depois disso tudo, amo vocês”. 

 

Leia o relato completo de Camila divulgado nas redes sociais:

“Hoje faz 1 semana. E tomei coragem para escrever um pouco sobre meus sentimentos.

Faz uns 2 meses que o medo da COVID-19 começou a tomar conta do meu pensamento e pensamento dos meus colegas… lembrei daquela história de terror que minha mãe contava… a história do sapato preto que aterrorizava, pois a cada passo da história ele estava mais perto de casa trazendo medo e morte pelo caminho. Aos poucos fomos treinando e presenciando mudanças drásticas na organização do hospital, o medo foi crescendo. 2 semanas atrás eu fui ficando até mais tarde no hospital sem almoço, cansada.

Precisava treinar mais e mais. 7 dias atrás o Joaquim foi ainda meio doentinho morar com a vovó para ficar mais seguro, levou todos os brinquedos que já faziam parte da decoração bagunçada da casa. O Cris ficou cuidando de de mim e da casa.

Eu fui cedida para a UTI COVID-19 referência para todo o hospital nesse momento. Mais e mais treinamentos. A paramentação é quente, a máscara machuca, o óculos e o protetor facial embaçam. Não podemos tocar no rosto, não podemos beber água nem ir ao banheiro depois de paramentados. Não podemos comer, não podemos sair para tomar um fôlego ali fora, se eu sair do ambiente contaminado preciso jogar avental luvas touca e máscara no lixo.

Precisamos poupar material, tudo isso é muito caro e o medo de faltar é grande. Não posso me dar o luxo de jogar um avental e uma máscara no lixo só pq eu quero fazer um xixizinho. Ganhei fraldas do marido. Não consegui usar nos primeiros dias, a bexiga explodindo e não consegui usar a fralda.

Na saída preciso de ajuda para tirar roupas e sapatos, para não contaminar a parte limpa do setor. Banho com produto degermante pelo corpo todo.

Aí meu cabelo está parecendo uma vassoura… chego em casa tiro toda a roupa do lado de fora com ajuda do Cris, roupa direto para máquina e eu direto para outro banho, chegou a parte boa . Comida quentinha que o marido fez e um cochilo na sala as vezes até com direito a colinho do marido. Casa vazia sem o Joaquim, tudo lembra o Joaquim.

Aprendi muito essa semana sobre meu trabalho e sobre meu corpo… Aprendi muito sobre meu casamento e sobre a fragilidade humana. Quando o telefone toca no setor uma dor no coração, alguém da família de algum paciente querendo notícias, não podem visitar, não poder vir ao hospital, só recebem notícias por telefone e nem sempre são boas essas notícias. Deus me livre por favor de passar por essa angústia.

Que saudade dos meus colegas de CTSI que saudade da Mariely Roseira, minha amiga, minha irmã mais nova que não se importaria em ouvir cada desabafo meu nesse momento. Que saudade da minha família, da broa da bisa, dos almoços de domingo com as tias falando todas ao mesmo tempo. De conversar na garagem cheia de plantas do meu pai enquanto o Joaquim apronta ali pertinho da gente e a Andréia conta alguma história engraçada que aconteceu durante a semana. Que saudade de visitar a bisa e a vovó Mara. Do café da tarde com o tio mô. Que saudades de vcs.

Se cuidem muito eu vou precisar muito de vcs depois disso tudo.. amo vcs.”