A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) disponibilizou, no último domingo (22), um formulário online para receber dados e informações de brasileiros que estão em outro país com passagens de volta compradas que, porém, não conseguem retornar ao Brasil. Em dois dias, a Anac já havia recebido o cadastro de 11 mil pessoas que se encaixam nesta situação.

Na quarta-feira (25), o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério da Defesa anunciaram a repatriação de brasileiros que estavam em Cuzco, no Peru. De acordo com os ministérios, 66 brasileiros foram resgatados por duas aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) e pousaram em Porto Velho, Roraima. Ainda segundo o Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro continua acompanhando a situação de viajantes que estão no exterior com o objetivo de concretizar a volta para casa.

Contudo, brasileiros têm relatado nas redes sociais uma demora e ‘abandono’ por parte do governo que não dá explicações, respostas e possíveis saídas para o retornar ao país.

 

“Aqui na Tailândia os brasileiros estão desamparados”

A Tailândia, país localizado no sudeste asiático, é bastante conhecida por suas praias tropicais, palácios reais e construções antigas. O que seria um local paradisíaco e de descanso, acabou se tornado uma dor de cabeça para o curitibano Heleal dos Santos, de 43 anos, que está na capital do país, em Bangkok.

Em entrevista à Banda B, o administrador relatou que, além dele e sua esposa, há cerca de 300 brasileiros no país que não conseguem voltar para o Brasil: “Levando em conta a Indonésia, Vietnã, Camboja, Filipinas… há muita gente querendo voltar e não consegue”.

Por conta da disseminação da Covid-19, países fecharam fronteiras aéreas e terrestres, provocando o cancelamento de centenas de voos pelas companhias aéreas. Por isso, brasileiros estão presos dentro de alguns territórios e mesmo com passagens de retorno compradas, muitos não conseguiram reembolso ou sequer remarcar o voo.

Heleal contou que tem conversado constantemente com a embaixada brasileira no país e que foi ofertado a eles um voo pela companhia Ethiopian Airlines no valor de pouco mais de 10 mil reais. “Muitas pessoas que estão aqui não tem como arcar com esse valor, inclusive tem gente pedindo dinheiro no aeroporto para se manter aqui”. Ele e a esposa estão em um Airbnb, um tipo de acomodação e hospedagem.

 

Heleal dos Santos. Foto: Reprodução/Facebook

 

Segundo ele, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil – ou Itamaraty, como é conhecido -, órgão do Poder Executivo responsável pelo desempenho e acompanhamento das relações do Brasil com outros países, criou um grupo no WhatsApp com brasileiros ‘presos’ na Tailândia a fim de comunicar como andam as negociações em relação a repatriação. “Eles convidaram os brasileiros a deixarem o mais rápido possível lugares como ilhas, regiões afastadas, e se deslocarem até Bangkok onde devemos embarcar o quanto antes caso as negociações funcionem”.

Em vídeos publicados nas redes sociais para que o caso repercuta e chegue às autoridades, ele relata que muitas das pessoas que estão nessa situação não têm como pagar 10 mil reais para voltar, pois acabaram custeando remédios, comida e hospedagem. “Nós queremos estar perto de nossa família neste momento, temos pais, filhos e muitos outros”, disse.

Heleal e a esposa Liz preencheram o formulário online da Anac, mas disseram que ainda não houve nenhuma medida concreta por parte do governo. “O governo não falou nada sobre nos ajudar a voltar ou até mesmo custear parte do voo”, ressaltou. E ainda criticou: “há empresas aéreas que estão cobrando muito alto por conta da pandemia”.

Até a última quinta-feira (26), a Tailândia contava com 1.045 casos confirmados de pessoas infectadas pela Covid-19 e 4 mortes.

O Itamaraty, em nota, disse à Banda B que a Embaixada do Brasil em Bangkok havia negociado a oferta de um voo por uma companhia comercial, mas houve “baixa demanda” e por isso foi cancelado. Leia na íntegra:

A Embaixada do Brasil em Bangkok havia negociado a oferta de um voo da Ethiopian Airlines que repatriaria os brasileiros e partiria dia 28/3, amanhã. Infelizmente, houve baixa demanda e a companhia decidiu cancelar o voo. Nossa Embaixada está tentando marcar um novo voo com a Ethiopian, mas será necessário que haja grande adesão dos brasileiros. No momento, não há previsão de voos fretados pelo Governo brasileiro, seja por meio da Força Aérea Brasileira, seja em voos privados.

 

“Nosso sentimento aqui na África do Sul é de apreensão e impotência”

Affonso Chaves, de 65 anos, foi para Johanesburgo, na África do Sul, para passar as férias junto de sua esposa e um casal de amigos, todos de Curitiba. O embarque aconteceu no começo de março.

“Até a última quinta-feira (26), o problema era exclusivamente com a empresa aérea Latam. O país proibiu a entrada e saída de aviões no país. Por mais que qualquer empresa queira vir, não pode entrar. Agora o assunto está sendo tratado entre os governos dos dois países”, disse Affonso. Segundo ele, há conversas entre os viajantes e a embaixada, mas “por enquanto não há previsão de voltarmos”, contou à Banda B.

No dia 23 de março, Affonso e seus companheiros voltariam para o Brasil, mas tiveram o voo cancelado, o qual foi transferido para dia 27, que também terminou sendo cancelado. Agora o voo foi remarcado para o dia 30, mas ainda “não está confirmado”, como enfatizou. De acordo com ele, a Latam apenas diz lamentar os cancelamentos, mas não toma nenhuma outra atitude.

 

Affonso Chaves ao lado de sua esposa. Foto: Arquivo Pessoal

 

Affonso e as pessoas que o acompanham estão presos dentro do país e esperam alguma ação do governo para que sejam resgatados, já que “não há mais linhas aéreas aptas para os levarem para casa”.

Eles também preencheram o formulário online divulgado pela Anac no último domingo, mas até agora não tiveram nenhum tipo de retorno. Entretanto, relataram que “o governo da África do Sul está aberto à discussão e os tem ajudado”.

Affonso ainda disse que ele e a esposa fazem uso de medicação controlada e contínua, e que alguns desses medicamentos acabaram. “Tivemos ajuda de um médico brasileiro no aeroporto, que estava na mesma situação que nós. Ele traduziu os princípios ativos de nossos remédios e com isso conseguimos comprar a maioria deles na farmácia”.

“Estamos arcando com hospedagem, remédios e comida, mas temos esperança que até o dia 30 ou 31, como está sendo falado, consigamos uma solução definitiva”, disse Affonso.

Sobre um grupo de WhatsApp em que foram incluídos, Affonso diz: “ainda não temos nenhum comunicado oficial sobre a solução. Apenas recebemos a informação de que estão em negociação para resolver nosso problema e informações práticas sobre os hotéis que estão abertos neste período, nomes de médicos para conseguirmos receitas para remédios controlados e orientações sobre como cobrar reembolso da Latam. Nosso sentimento aqui é de apreensão e impotência frente à situação. Imensa decepção com a Latam e a expectativa de que realmente se cumpram as datas que nos foram informadas para o retorno 30 e 31/03”, desabafou Affonso.

De acordo com a Embaixada do Brasil em Pretória, como divulgado no site do órgão, existe um contato entre a própria Embaixada, com o governo local, a Latam e o grupo de crise do Itamaraty para viabilizar o retorno dos brasileiros ao país de origem.

A África do Sul, até esta sexta-feira (27), já conta com mais de mil casos confirmados do novo coronavírus e o ministro da saúde do país, Zweli Mkhize, anunciou as primeiras mortes na região.