O comentário do apresentador Luciano Huck, que comparou o bairro Caximba com o Haiti, país mais pobre da América Latina, expôs uma situação crítica pela qual várias pessoas vivem no extremo sul de Curitiba. Em uma área com muito acúmulo de lixo, a Vila 29 de Outubro é a única alternativa para que essas pessoas não passem a morar na rua. A maioria lamenta a condição irregular, mas descreve a esperança de uma vida melhor em um breve futuro. A crítica do global foi feita na sexta-feira (17) e a Banda B esteve no local neste domingo (19) para buscar entender como é o dia a dia de quem mora no local.

O catador de recicláveis Laureci Borges, por exemplo, conta que conheceu a esposa Karla na cidade de Telêmaco Borba, nos Campos Gerais, e, há nove anos, passou a morar na região. Em suas atividades, o casal chega a passar quase vinte horas por dia na rua para tentar obter um dinheiro melhor mensalmente. “É difícil, mas dá para sobreviver”, diz Laureci.

Karla admite que a água e a luz da residência é obtida pelo chamado ‘gato’ e aponta essa como apenas mais uma dificuldade de se viver em condição irregular. “Não é do jeito que a gente queria, mas é o que temos. Tem semana que temos água e luz e tem semanas que não temos nenhum dos dois. Claro que seria ótimo se desse para pagar, mas estamos nos virando. Nosso maior medo é o de investir algo aqui e a polícia tirar tudo com ação de desocupação”, comentou.

O casal vive ainda com uma porca, a Peppa, que chegou até ali em uma caixa de sapatos. Bastante obediente, a Peppa se tornou parte da família.

Desemprego

Júlio Antonio Linhares, de 48 anos, é outro morador da Vila. Nascido em Guaratuba, o pedreiro conta que veio em busca de uma melhor financeira, mas a dificuldade de encontrar trabalho o empurrou para a região do bairro Caximba. “Comecei morando de aluguel, mas estava difícil pagar e estou morando aqui desde então. Temos dificuldades com água e luz, mas o lugar é até bom para morar. O problema é depender de transporte coletivo”, explicou.

Desafio

Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Olga Lúcia Firkowski, diz que a situação no local é extremamente complexa e que a mudança depende de anos de investimentos. “Nossa sociedade vive uma situação de extrema desigualdade e isso parece estar se agravando. A Caximba era um aterro sanitário e fica muito próximo de rios importantes. Apesar de percebermos a área como um local inadequado para moradia, os desafios são enormes ali pelo fato de ser uma questão humana”, explica.

Entre os desafios, a especialista aponta a questão de identidade dos moradores com o local, já que muitos cresceram ali, e principalmente a falta de condições financeiras de buscar um lugar melhor. Olga também cita o fato de a área não ter interesse imobiliário, o que torna o espaço uma espécie de lugar que sobra na cidade.

Para a docente da UFPR, comparar qualquer lugar com outro é muito complicado, já que podemos perder de vista os processos específicos de cada lugar. “A prefeitura não pode criar de forma unilateral a retirada dessas pessoas. A intervenção do poder público em áreas de ocupação irregular não vai se transformar em área em um lugar maravilhoso em curto espaço de tempo, então é necessário um longo período de investimentos. Nessa questão, não podemos partir apenas do olhar ‘interesseiro’ do apresentador no sentido de motivar determinado quadro do seu programa, como não podemos pegar apenas um olhar raso da prefeitura, já que dela depende de um montante de investimento muito maior. A questão é muito complexa”, concluiu.

Prefeitura

Após as críticas de Huck, a Prefeitura de Curitiba informou que Rafael Greca está negociando um financiamento de R$ 250 milhões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para investir na recuperação de áreas de ocupação irregular da Caximba. Há duas semanas, uma comissão de técnicos liderada pelo presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), Luiz Fernando Jamur, esteve na sede do banco em Brasília, apresentando este e outros projetos estruturantes para a cidade.

O município também busca recursos para as intervenções urbanísticas e ambientais necessárias na Caximba com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) — o projeto que vem sendo chamado de Bairro Novo da Caximba foi apresentado para análise dos franceses em julho.

“Foi ao ver a situação indigna da Vila 29 de Outubro [na Caximba] que decidi voltar a administrar Curitiba. Depois de anos de abandono, aquela região passou a receber desde o início do ano passado uma série de ações que estão resgatando a dignidade e a cidadania dos moradores. A recuperação integral exige mais — e mais estamos fazendo.”