A água passa em torno de uma hora e meia a duas horas e meia na estação de tratamento até sair de lá pronta para o consumo. (Foto: Arquivo/Sanepar)

Após conhecer os rios que garantem a captação da água usada por moradores de Curitiba e região metropolitana (RMC), o próximo passo é entender de que forma esse recurso é tratado e se torna próprio para o consumo. Esse é o assunto da segunda reportagem da série da Banda B “Água: Preservar para não faltar”, produzida em parceria com a Companhia de Saneamento do Paraná, a Sanepar.

Antes de chegar limpinha na torneira das casas, a água percorre um grande caminho. Do manancial ou do poço de onde é retirada, ela passa por uma estação de tratamento e, depois de se livrar das impurezas, é distribuída pelas tubulações até os consumidores.

De acordo com o gestor da Estação de Tratamento de Água Iraí, Renato Afonso Kleina, para compreender como o sistema funciona, é importante levar em consideração que a água é um solvente universal. “Ela tende a aderir as características do meio onde está. Por isso, possui impurezas que nós temos que remover, como argila, terra e decomposição de matéria orgânica”, disse ele em entrevista à Banda B.

O gestor explicou que a água possui partículas de sujeira muito pequenas, que não têm como serem retiradas apenas por uma filtração comum. “Antes de qualquer coisa, nós precisamos transformar essas impurezas, adicionando produtos químicos que quebrem a força de atração e repulsão entre elas, criando um aglomerado de partículas maiores. Assim, fica mais fácil de removê-las”, completou. Esses são os processos chamados de coagulação e floculação.

Em seguida, a água entra em um tanque para a decantação, onde ocorre a separação dos flocos de sujeira formados na etapa anterior. “As partículas ficam lá no fundo e a água limpa sai em cima. Posteriormente, o processo de filtração retém o resto da sujeira que passou e não foi eliminada, essa é a malha mais fina”.

Etapas finais

Até a filtração, no entanto, a água não está totalmente pronta para o consumo. Ela deve passar ainda pela correção final do pH, índice que define a acidez de uma substância – um pH de 7 é neutro, um abaixo de 7 é ácido e acima é básico ou alcalino. Para o consumo humano, recomenda-se um valor entre 6 e 9,5.

“Toda água que nós produzimos tem o pH entre 6,5 e 7, mais ou menos. Em alguns casos, precisamos adicionar produtos químicos como cal hidratada e soda cáustica para corrigir o índice”, afirmou Kleina.

As últimas etapas do tratamento da água, após a correção do pH, incluem a adição de cloro (desinfecção) e flúor (fluoretação), para garantir que o recurso chegue o mais limpo possível até a população. “Aí sim ela está pronta para o consumidor. É essencial ressaltar que a nossa fiscalização funciona 24 horas por dia. Há todo um cuidado na rede, amostras são feitas para serem avaliadas e, se a água está suja, nós realizamos descargas até consertar o sistema”, comentou.

Segundo o gestor, a água fica em uma estação de tratamento durante uma hora e meia a duas horas e meia para sair de lá limpa e pronta para o consumo. “Há também diferença no tempo que ela leva para chegar na estação, porque há lugares de captação que ficam a 500 metros de distância e outros a 16 quilômetros, por exemplo”.

Cartaz mostra as etapas pelas quais a água é submetida até se tornar potável. (Imagem: Divulgação/Sanepar)

Nem todo tratamento é igual

Apesar de existir uma base comum de processos para os tratamentos, cada estação é desenvolvida de acordo com as características da água com a qual vai trabalhar. “Se um manancial não tem mata ciliar para se proteger, aquela que fica localizada na margem, em caso de chuva, toda a terra ao redor vai parar no rio. Esse tipo de coisa torna a água muito mais difícil de tratar e aumenta o custo para que isso seja feito”.

Kleina ressaltou que toda água é tratável, inclusive a do mar, mas o processo e o investimento são diferentes. “Muita gente se pergunta se dá para tratar a água salgada. A resposta é sim. Mas a tecnologia é outra e ela ainda não é viável economicamente. Em regiões de deserto, por exemplo, talvez seria uma boa opção, mas nós ainda temos outras alternativas”, concluiu.

E o esgoto?

Todo o processo descrito até aqui está por trás da simples atitude de abrir a torneira de casa e ver a água sair dela limpa e potável. No momento em que o recurso é usado e vai para os ralos da pia ou para o vaso sanitário, um novo caminho começa: o tratamento do esgoto.

A partir do momento em que alguém dá a descarga, os resíduos vão para a tubulação primária localizada na frente da residência e, em seguida, são levados até o encanamento principal, o coletor tronco. Ele é responsável por direcionar os dejetos para a estação de tratamento, onde a água passa por uma série de etapas.

De acordo com o gerente de Tratamento de Esgoto da Sanepar, Ernani José Ramme, a primeira parte consiste no gradeamento grosseiro, que segura a sujeira indevida jogada no esgoto doméstico da população. “Durante essa etapa, nós já encontramos fralda, preservativo, garrafa pet e até pneu de bicicleta, tudo o que não deve parar na rede de saneamento. Depois que isso for retirado, há o gradeamento médio e fino, seguido da remoção de areia. É aí que vem o tratamento primário e o pós-tratamento. Só depois a água é lançada no rio, que tem o poder de diluir a carga poluidora restante. Por isso, não é preciso se preocupar, porque a pessoa não vai consumir lá na frente o mesmo recurso que saiu do esgoto”.

Para garantir a alta qualidade do produto fornecido, o próprio Instituto Ambiental do Paraná (IAP) avalia se é possível ou não realizar a captação no rio depois que ele recebeu a água tratada do esgoto.

Depois de utilizada, a água que vai para o ralo ou vaso sanitário passa por um novo processo de tratamento para voltar à natureza, como explica o cartaz. (Imagem: Divulgação/Sanepar)

Importância do saneamento básico

O saneamento básico não é uma questão importante apenas para o meio ambiente. O gerente apontou que ele é também fator determinante para melhorar a saúde da população. “Nós percebemos isso lá no posto de saúde, onde diminui a incidência de diarreia e outros problemas relacionados à questão hídrica. Além de melhorar também a qualidade de vida dos moradores, evitando que os dejetos fiquem em valetas ou a céu aberto”.

Ele lembrou que um bom sistema de saneamento permite que até mesmo a água do mar fique mais limpa. “Pelas análises de balneabilidade do nosso litoral no ano passado, por exemplo, concluímos que o banhista pode usufruir do seu período de férias sem problemas. Isso é resultado de investimentos da Sanepar dentro dos municípios para a realização de obras que ampliem a rede de esgoto e impeçam que ele vá direto para o mar”.

A Sanepar possui 42 troféus em Prêmio Nacional da Qualidade em Saneamento. Ela tem hoje índices que superam a média nacional. Curitiba tem o melhor saneamento entre as capitais, segundo o ranking do Instituto Trata Brasil.

Para Ramme, os bons indicadores da companhia são provenientes de um bom grupo técnico e do suporte do governo do estado. “Quando você possui um planejamento anual que determina o potencial que temos de investimentos nas cidades e um plano diretor de saneamento, a tendência é melhorar os indicadores”, disse.

O que o morador pode fazer para ajudar

Quanto mais limpa a água do rio, mais fácil e barato é o processo para tratá-la – o que é bom para o meio ambiente, a saúde da população e as contas do estado. A relação parece óbvia, mas muitos moradores ainda tomam atitudes erradas quando se trata de saneamento. Uma delas, como já alertou o gerente, é usar a tubulação do esgoto como lixeira.

Estação de tratamento de esgoto tem o trabalho facilitado se os moradores colaborarem com atitudes simples, como não jogar lixo na rede. (Foto: Arquivo/Sanepar)

“O lançamento de lixo no sistema infelizmente é comum. Nós recebemos muita coisa que não deveríamos. As pessoas jogam restos de pano e vários outros objetos que podem entupir a tubulação, fazendo com que a água volte para a casa e causando inúmeros transtornos também para a rede no geral. Esgoto não é lixo, ele deve ser usado somente para tratar dejetos das pias e do vaso sanitário”, esclareceu.

Outra atitude simples que faz toda a diferença é não jogar óleo na pia da cozinha. O adequado é separá-lo em uma garrafa pet e levá-lo até pontos de coleta pela cidade – como em supermercados. “Jogar gordura na pia prejudica a rede. Eu sempre digo que é como se causasse um enfarte na tubulação, já que entope e gruda nos canos. Retirá-la de lá causa um estresse muito grande na vizinhança, porque até o cheiro incomoda”, comentou Ramme.

Sobre o tema, o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em ETEs Sustentáveis, Carlos Chernicharo, ressaltou que conscientizar a população sobre o uso das peças sanitárias dentro de casa é essencial para facilitar o tratamento de água e esgoto.

“A temática está sendo abordada pelo Instituto em várias linguagens, para mostrar ao público leigo como o sistema funciona. Hoje, encontramos dificuldades principalmente por conta das coisas que os consumidores lançam no vaso e que muitas vezes nem sabem que não é permitido, como cotonete, cabelo, absorvente… O sanitário é feito para receber fezes, urina e eventualmente papel higiênico, esse último em países da Europa e Estados Unidos”.

Desafios

Para a gerente de projetos da Sanepar, Juliana Seixas Pilotto, a preservação dos mananciais e a colaboração dos consumidores estão entre os desafios a serem enfrentados para melhorar o tratamento de água e esgoto.

“A questão da conservação dos rios é muito importante porque, ao longo do tempo, com a degradação do meio ambiente, se a gente tiver uma água bruta que onere o tratamento, teremos que buscar mais longe, o que implicará em um maior custo de energia elétrica para trazer esse recurso”, disse ela.

A gerente explicou que existe tecnologia na engenharia sanitária para tratar qualquer tipo de água e esgoto. A ideia, no entanto, é evitar que sistemas mais complexos e caros precisem ser utilizados enquanto há a possibilidade de conservar os mananciais.

“O problema não é a tecnologia, mas sim o custo e a forma de utilização porque se eu usar mais produtos químicos, criarei mais lodo, o que dificultará todo o processo. Por isso, a Sanepar cuida de cada pedacinho do ciclo da água, do rio até a estação de tratamento, chegando na casa do consumidor e voltando para a tubulação. Nós tomamos todos as precauções para não prejudicar o sistema de outras cidades”, concluiu.

Série

Essa é a segunda reportagem da série “Água: Preservar para não faltar”, produzida pela Banda B em parceria com a Sanepar. O trabalho tem como objetivo apresentar ao consumidor o ciclo pelo qual a água passa até chegar nas torneiras e ações de educação ambiental que podem auxiliar na preservação dos mananciais.

Confira a primeira matéria abaixo:

De onde vem a água? Série da Banda B explica os caminhos até chegar na torneira de casa

Áudio

Ouça a segunda reportagem especial da série que foi ao ar no Jornal da Banda B 2ª Edição, na Rádio Banda B: