Até tomar água ficou diferente após Milton, 52, perder o paladar por causa da Covid-19. Hipertenso, teve febre, dores de cabeça e no corpo em abril. Foi afastado do trabalho e retornou há poucos dias ao posto. “Com certeza peguei no frigorífico”, conta.

Milton – cujo nome foi trocado a seu pedido nesta reportagem por temor de constrangimento – é um entre os ao menos 11.499 trabalhadores de 104 frigoríficos contaminados pelo novo coronavírus até 13 de julho nos três estados do Sul, segundo levantamento mais recente do MPT (Ministério Público do Trabalho). A região concentra a maioria dos 500 mil empregados do setor.

Foto: Divulgação/Abiec

No país, o MPT firmou termos de ajustamento de conduta com 93 frigoríficos, que abrangem 179.358 trabalhadores.

Milton mora em Lajeado (RS), cidade com incidência de Covid-19 de 3.010 casos para 100 mil habitantes, quase o quádruplo da capital, Porto Alegre, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde.

Lajeado registrou surtos em dois frigoríficos, que empregam cerca de 5.000 trabalhadores. “Depois dos casos, as empresas estão tendo mais cuidado. Mas fora do serviço, o pessoal não se cuida. Chega na rua e tira a máscara”, diz Sérgio Luís Fagundes, presidente do Stial (sindicato dos trabalhadores).

Fechados e com pessoas normalmente próximas, frigoríficos são locais que propiciam o contágio. “É extremamente frio e úmido. A máscara agora é obrigatória, mas o pessoal não tem a mesma preocupação depois que acaba a jornada”, disse Paulo Madeira, presidente da Ftia (federação dos trabalhadores nas indústrias de alimentação).

As empresas passaram a adotar medidas como divisórias de acrílico para evitar o chamado “ombro a ombro” e protocolos rígidos de distanciamento. Os frigoríficos de Lajeado, BRF e Minuano, afirmam que adequaram suas estruturas.

A BRF diz que implementou 500 m² de acrílico para a separação nos refeitórios e em outros locais da planta para criar barreiras em Lajeado. Foram contratados funcionários para a lavanderia, com capacidade de higienizar 8 toneladas de máscaras por mês –elas são entregues também na entrada de vestiários, refeitórios e saída da empresa.

Mais 24 ônibus foram acrescentados à frota que transporta os funcionários, e a temperatura de cada passageiro é medida antes do embarque. Além disso, vigilantes foram contratados para manter o distanciamento nas áreas de lazer.

Em Nova Araçá (RS), com cerca de 4.500 habitantes e 517 casos confirmados, a maioria dos casos são originários do frigorífico local. Foram 462 contaminados –não há surto no momento.

Outras cidades gaúchas, como Passo Fundo e Caxias do Sul, também tiveram surtos.

Já em Santa Catarina houve ao menos 3.132 trabalhadores de frigoríficos contaminados até meio de julho, segundo o MPT. Um funcionário com teste positivo para Covid-19 foi flagrado trabalhando em maio, em Ipumirim (a 359 km de Florianópolis). Procurada, A JBS não comentou. Ipumirim tem 7.530 habitantes e 140 casos.

No Paraná, onde cerca de 100 mil pessoas trabalham em frigoríficos, ao menos 4.717 foram infectadas com o novo coronavírus até o dia 11 de agosto, segundo o Cest (Centro Estadual de Saúde do Trabalhador). Quatro funcionários e outras duas pessoas que tiveram contato com contaminados nas empresas morreram.

Do total, o órgão aponta que 27 indígenas pegaram a doença enquanto trabalhavam na Lar Cooperativa Agroindustrial, em Matelândia – em toda a cidade, localizada no oeste paranaense, foram 818 casos do novo coronavírus só em frigoríficos.

Foi da empresa que o vírus chegou na aldeia Tekoha Ocoy, na vizinha São Miguel do Iguaçu, onde, ao todo, 77 índios foram infectados. A Covid-19 matou o patriarca e rezador do grupo, Gregório Venega, 105. “[Era] a pessoa mais importante da nossa aldeia”, lamentou o cacique Celso Ocoy.

À reportagem, a Lar informou que o pico de afastamentos de funcionários ocorreu em junho e que, atualmente, os casos estão em declínio. Os cerca de 45 indígenas que trabalham na empresa permanecem afastados do trabalho. O frigorífico afirma que mantém um robusto plano de contingência contra o novo coronavírus.

Situação mais grave ocorreu em Toledo, também no oeste, que registrou 1.162 trabalhadores de frigoríficos contaminados. Um deles morreu. O número representa quase um quarto de todos os casos em empresas do setor no estado.

Já o maior número de mortos ocorreu em Paranavaí, no noroeste. Em maio, a contaminação em um frigorífico gerou um surto na cidade e em outros 21 municípios. Cinco pessoas morreram, incluindo duas que tiveram contato com trabalhadores da planta.

Em todo o estado, o MPT ajuizou seis ações contra empresas do ramo e outras 15 já firmaram termo de ajustamento de conduta.

Além do Sul, a região Centro-Oeste tem enfrentado problemas. Guia Lopes da Laguna (MS) é a segunda colocada na incidência de casos de Covid-19 por 100 mil habitantes no estado.

A cidade de 10.366 habitantes enfrentou um surto em maio. Um caminhoneiro que fazia entrega no Brasil Global foi o vetor – após contato com funcionários do descarregamento, o vírus se espalhou pela empresa, que suspendeu temporariamente as atividades. Dos 299 casos, 130 foram registrados entre os 311 empregados da planta.

O município fechou tudo para controlar a pandemia. A saída era permitida só duas vezes por semana e havia toque de recolher das 20h às 5h. Apenas uma contaminação no frigorífico foi registrada depois disso.

O cenário nos frigoríficos não difere do vivido por outras atividades econômicas no país e as empresas adotam padrões rígidos de segurança sanitária para proteger seus funcionários, segundo Ricardo Santin, diretor-executivo da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal).

“Temos cinco meses de pandemia e há frigoríficos com nenhum caso até hoje. E não é um só. O frigorífico não é um polo da Covid-19, e sim as pessoas que trabalham, como os que atuam em diversas outras atividades.”

A avaliação de Santin é a de que houve uma “demonização” dos frigoríficos, que não corresponde à realidade. “Não é verdade que o frigorífico está adoecendo as pessoas, ao contrário, está cumprindo sua missão que é manter a segurança alimentar”, disse.

Conforme a ABPA, desde março as agroindústrias reforçaram as medidas de proteção para preservar a vida dos empregados e a qualidade dos alimentos produzidos, o que resultou em adequações. “O maior efeito que elas sentiram foi o afastamento prévio, que em alguns casos foi de 5% a 10% da força de trabalho. São os casos de trabalhadores acima de 60 anos, diabéticos, com pressão alta, grávidas e imunodeprimidos.”

Nota

Em nota, a JBS informou:

“A JBS afirma que investiu mais de R$ 100 milhões em medidas e processos de segurança e saúde em todas unidades do país. As medidas incluem ampliação de 49% das frotas de ônibus, EPis, vacinação gratuita contra H1N1 para seus colaboradores e contratação de 192 profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros.”