Quase três meses após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 em Curitiba, o fim de semana foi marcado por aglomerações em bares e complexos gastronômicos. No sábado (6), por exemplo, chamou a atenção o número de pessoas presente no Shopping Hauer, Largo da Ordem e Prainha da Itupava. Já no domingo (7), foi o entorno do Museu Oscar Niemeyer e a roda de samba realizada no Mercado Sal que ganharam as redes sociais.

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Nos relatos postados nas redes sociais, internautas passaram a questionar a falta de consciência das pessoas, uma vez que todas podem ser portadoras assintomáticas do coronavírus.

O movimento alto preocupa a Secretaria Municipal da Saúde, já que a cidade passa por uma escalada de casos confirmados. Outro ponto de alerta é a taxa de ocupação das UTIs, que chegou a 63% das UTIs do SUS exclusivas para síndromes respiratórias, a maior desde a chegada do vírus à capital paranaense.

Mas o que explica o alto movimento mesmo diante da pandemia?

Para o psicólogo Flávio Voight Komonski, que integra o Conselho Regional de Psicologia (CRP), são vários os fatores que contribuem para todo esse movimento. “Existe um discurso social muito forte e também uma psicologia que diz respeito a como cada um se comporta. A gente sabe que há um discurso muito dos empresários de que é possível flexibilizar um pouco, de que existe um novo normal, e isso acaba sendo estendido pelas pessoas no tempo livre, já que entendem que o tempo livre é a parte mais importante da vida delas. Sem contar que as pessoas tendem ainda a relativizar o perigo que tem, baseado em uma falsa sensação de controle, uma vez que acreditam que nada irá acontecer com elas. Em geral, elas entendem que o risco é menor do que de fato é”, explica.

Komonski também acredita que discursos relativizadores impactam fortemente nesse movimento. “As pessoas cansam e o Paraná a princípio até teve um comportamento exemplar até aqui. Como os casos não aumentam com as pessoas fechadas em casa, começa a surgir uma sensação de segurança, de que é tudo bem sair. Mas é importante sempre ter consciência e não se afastar do viés de segurança, de controle, para que a gente possa flexibilizar do jeito certo. O problema é que essa consciência vista até aqui não se baseia na realidade, ainda mais quando a segurança é motivada e há pessoas falando que é uma ‘gripezinha’”, disse.

Impacto

Diante dos casos registrados no fim de semana, o presidente da Associação Brasileira de Bares e Casas Noturnas (Ababrar), Fabio Aguayo, também se pronunciou. Segundo ele, uma minoria que está desrespeitando as medidas de segurança não pode ser vista de forma generalizada. “Nós repudiamos os empresários que não seguem as recomendações não só da nossa entidade, mas também da Organização Mundial da Saúde e da Secretaria Municipal da Saúde. Nós temos trabalhado incansavelmente para que todos os empresários sigam os protocolos e sabemos que a maioria está seguindo à risca. Não é por causa de fatos isolados que vamos generalizar, tanto é que tivemos várias manifestações, pessoas sem máscara, pessoas nas praças e nos parques, mas eu sei que a repercussão é maior quando acontece em um bar. Aqui queremos fazer um alerta aos empresários: você tem uma responsabilidade social muito grande, o que você faz impacta em toda a sociedade. Então, vamos seguir as orientações, vamos seguir os protocolos, não vamos deixar a minoria contaminar a maioria”, disse.

O Mercado Sal também divulgou uma nota sobre a repercussão. Confira na íntegra:

O Mercado Sal comunica que vem adotando todas as medidas recomendadas pelos órgãos governamentais para o enfrentamento da pandemia, seja com orientação de clientes e colaboradores, seja com monitoramento e treinamento de sua equipe de modo a assegurar que os frequentadores do estabelecimento mantenham o distanciamento recomendado e adotem o uso de máscaras.

Situações pontuais de possível aglomeração, quando constatadas, serão de pronto combatidas, exigindo a retomada do distanciamento.

O Mercado Sal reafirma seu compromisso de desempenhar seu papel, em constante monitoramento e envidando os esforços cabíveis para superarmos juntos essa difícil fase que vivemos em nosso país.

Prefeitura de Curitiba

A Prefeitura de Curitiba informou que, desde 17 de abril, quando entrou em vigor a resolução que estabelece medidas para serem colocadas em prática pelos estabelecimentos comerciais e de serviço em atividade, os fiscais da Secretaria Municipal do Urbanismo realizaram 263 fiscalizações. Foram ações diurnas e noturnas, em diferentes bairros, que resultaram em 229 notificações sobre questões relacionadas à Covid-19 e 112 notificações por irregularidades apresentadas nos alvarás.

Os fiscais também aplicaram ações de embargo em 26 estabelecimentos que acabaram tendo as atividades encerradas no ato da fiscalização.