Vovó Muchina é uma senhora já dos seus quase 80 anos. É baixa, cabelos bem brancos e cacheados, usa óculos de armação redonda. Tem fala fina e engraçada. Sua principal característica é a boca bem grande que chama atenção de qualquer um. Como toda velhinha, encanta crianças, ou pelo menos uma, Helena, minha filha. Não encanta mais, mas já encantou.

As duas foram apresentadas num certo verão que Helena foi passar em Guaratuba. O encontro aconteceu na feirinha, organizada em frente à praça da igreja matriz. A velha senhora se apresentou e ali começou uma amizade, mas que na verdade não esquentou muito.

Imagem ilustrativa

Dois dias depois, voltei da praia pra casa e esqueci a amizade delas, da vovó com Helena, que ficaram na praia.

No final da semana todos voltam para casa e pra minha surpresa Helena traz vovó Muchina que ganhava destaque na bagagem. Mas por alguma razão, a velha senhora foi abandonada. No máximo rápidas conversas na primeira semana. Como a relação não esquentou, vovó acabou na gaveta de brinquedos de Helena.

Dias depois, saindo para almoçar, Helena me diz “pai, posso levar um brinquedo”?

– Sim, mas desde que seja algo pequeno, filha.

Helena promovia o retorno da vovó Muchina. Agora mais sagaz, mais esperta, mais ágil. Me entrega a boneca, afinal era comigo que vovó Muchina tinha tido vida. Um fantoche, que como disse, foi comprado na feirinha da pracinha de Guaratuba e que precisa de uma mão, um pouco de ousadia e desinibição de quem se propusesse em dar vida à velha senhora.

Marta ao volante eu com Vovó Muchina se preparando para suas peripécias mais uma vez. Precisei buscar dentro da alma a tal da vovó Muchina. Aos poucos, ainda com certa timidez, vovó vai renascendo. A cada troca de ideias e de uma conversa que parecia não ter mais fim, renasce a amizade das duas. Helena se diverte. Ela gosta da brincadeira, da fantasia. Uma pequena pausa para o almoço. Mas já estava bem claro que vovó Muchina tinha renascido.

No caminho, de volta pro carro, já depois do almoço, vovó ataca Helena, tentando tirar de seu bolso umas balinhas de goma que serviram de sobremesa. Tenta convencer a menina que aquelas balas são ideais para uma senhora, sem dentes, que esqueceu a dentadura em casa. Helena se apieda da pobre senhora pela falta dos dentes, mas não cede, não entrega as balas.

Já dentro do carro, as duas retomam outra conversa proposta por Helena – para tirar a atenção da senhora, que ainda parecia tentar mais alguma coisa com as balas da menina.

Helena vence, e desce o vidro da janela do carro e propõe que vovó tome um ventinho para se acalmar.

Toda saltitante, mesmo com a idade um pouco avançada, vovó pula como um canguru do banco da frente para o de trás, onde estava Helena. As duas se divertem – Helena muito mais – vovó sente o peso da idade e se agarra no trinco da porta e de cabeça para fora do carro já em movimento, se diverte achando que está voando.

A esta altura. A cada semáforo fechado, o vexame era meu, com quem parava ao lado.

Com o carro novamente em movimento, a sensação dos cabelos soltos ao vento, lhe dão mesmo a impressão de estar voando. Helena percebe e em gargalhadas, segura a pobre velhinha, com medo de perdê-la para o vento, para fora do carro. O caminho é curto e as duas finalmente chegam eufóricas em casa.

Vovó deita-se para se refazer. Helena ainda provoca vovó, mas a velhinha não reage mais.

Entra em ação a mãe de Helena. Marta e Helena tomam o caminho da casa do vovó Iná, o caminho de todos os domingos à tarde.

Vovó Muchi e vovó Iná, as legítimas avós de Helena, não sabem, mas emprestaram as iniciais de seus nomes para dar vida à vovó Muchina, para uma brincadeira, um sonho que tomara, não tenha fim, mesmo muitos anos depois em alguma creche por o nde vovê Muchica deve estar.

É que hoje, já com quase 10 anos, Helena levou a vovó Muchina, como no filme Toy Story, para alegrar outras crianças de uma creche qualquer em Curitiba.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.