As pessoas estão doentes e pouco se fala nisso. Os suicídios seguidos que sei, me fazem lembrar uma frase que ouvi já há alguns anos, passando alguns dias em São José dos Campos, diante de mais um acidente pavoroso na Via Dutra, principal rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro.

Me disseram: “aqui em São José, todos têm uma história para contar sobre a Dutra. Quando não é um maluco que se joga debaixo de um carro ou caminhão, alguém sempre terá um amigo, parente ou conhecido envolvido num acidente. Se não perdeu, vai recomeçar a vida com alguma dificuldade, porque acidente em rodovia sempre deixa sequelas graves.

Imagem ilustrativa

Os suicídios, de tão frequentes, já não ganham mais a divulgação nos meios de comunicação, como foi durante anos. Provavelmente por conta de um pacto feito entre a própria imprensa, algumas tragédias não são mais noticiadas, no que concordo, porque isso não precisa mesmo de publicidade.

Só que alguns fatos não escapam dos celulares que, com suas câmeras flagram nosso dia-a-dia, pelas cidades deste mundo, já quase de pernas para o ar.

Uma fatalidade foi gravada esta semana, por uma destas câmeras, registrando o flagrante e o impacto que uma cena de suicídio pode causar na vida de todos, até num casual espectador destes vídeos, que ganham as redes sociais, justamente fazendo o papel que um dia foi da imprensa.

Não tem como escapar de algumas destas cenas. A imprensa até te poupa, mas as redes sociais, não.

E lá estão as cidades escancaradas, as pessoas vistas pelos olhos dos celulares que vão nos contando como andam, como vivem, nesta cultura do flagrante,  ganhando as redes com suas decisões extremas, que sempre chocam.

Um garoto busca o fim de sua vida saltando do alto de um prédio, caindo em cima da capota de um carro, matando também o motorista. Um motorista Uber que casualmente esperava um passageiro, encostado com seu carro no meio fio, foi o que agitou a semana nas redes sociais, esta semana.

A cena não só ganhou a internet, como colocou a vida no escracho, mais uma vez. Para o mundo todo ver o desejo do fim, de quem desistiu dela e sem querer levou junto outra vida. Que tinha outra opção. Mas os dois, em comum sabiam o quanto cada decisão -de viver ou não – deixa sempre a vida por um fio.

Estamos doentes, abrindo mão da vida, que é o que temos de mais importante nesta passagem.

Enquanto isso, uma enorme mão-de-obra se forma por aí, tentando justamente dar mais qualidade à vida, com profissões como médicos, enfermeiros fisioterapeutas, profissões da área de saúde, e uma em especial, a da saúde mental, precisa logo ganhar mais atenção e rapidamente descobrir um caminho para nos colocar de volta no rumo, nos trilhos. Se é que isso é possível.

Estamos doentes e precisamos de ajuda, antes que se banalize o suicídio.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.

Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho.