(Imagem ilustrativa/Pixabay)

Acho que a idade é cruel muito mais quando a gente não deixa ela chegar ao natural.

Ela vai debilitando, diminuindo as reações, limitando as ações e fica pior quando você não percebe que o humor também está indo junto. Sem aviso, nem nada.

Você já carrega um semblante de desconforto. Se o humor tivesse pelo menos avisado que também estava indo embora, talvez deixasse as coisas um pouco mais leves e você se adaptado mais rapidamente à idade, mas leveza nunca foi mesmo o seu forte.

A idade que já passa dos 80, não podia ter te deixado assim, já meio desligada  de muitas coisas, mas quem sabe se ainda tivesse o humor, as coisas seriam um pouco mais leves, não é ?  Algumas delas nem são assim tão importantes, mas ficam porque você faz com que elas sejam. Você é assim.

Pensando bem, oitentinha nem é tanta idade assim , mas a tensão de todos os anos vividos, tiraram o mínimo de qualidade que você poderia ter neste resto de vida. Mesmo assim, ainda acho que em algum momento você vai ter que sorrir.

O humor se foi, mas já esteve com você  algumas vezes. Será que não dá para recuperar? Só um pouquinho! Parece que não, né?

O humor que você usou até  aqui, tinha recheio de um riso tenso, nervoso, debochado,  era diferente.  Não parecia um riso daqueles que sai pela boca e pelos olhos.

O teu riso podia ter muita coisa, mas não tinha alegria. Alegria mesmo você teve poucas. Quando teve, arrumou logo algo maior que ela, porque achava que a você não era dado o direito de ser alegre. Um riso frouxo, risada com os olhos, eu nunca vi em você. A vida foi difícil pra você, eu sei.

Pena, você já tem 80 anos e ainda não sorriu direito! Mas ainda acredito que ainda vou te ver sorrindo de verdade. Sem esta culpa, que não existe, que só você sente ela.

A leveza tem que estar  escondida em algum lugar ai dentro. Talvez a mesma leveza que está na relação com as flores do seu jardim.

Uma vez flagrei uma conversa entre vocês, mas não entendi.  Vocês se entendem bem. Você cuida delas com tanto carinho. Se orgulha delas… parecem seres especiais, as únicas a guardar os teus segredos.

Como os espinhos do roseiral que estão ali e cumprem suas funções para guardar e zelar pelo odor e a beleza das rosas, mas também parecem guardar seus segredos e seu sorriso.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.