Nós pais viramos verdadeiros bocós nas mãos deles. Lembrei há pouco que quando minha filha completou dois anos e meio, parecia ser exatamente a fase da transição do bebê para a criancinha. Saía da fase de pedir com gestos, apontando para o que quer. Passou a se manifestar dialogando, verbalizando do jeito dela.

Também passou a dissimular e jogar. É momento onde percebi claramente a formação do caráter e principalmente a importância que nós pais temos na vida deles.

No meu caso, vivi isso duas vezes, mesmo que cada caso tenha a sua individualidade. Um filho é diferente do outro, Helena se aproveitou da minha terceira idade e abusou. Coisa que não aconteceu com Luiz Fernando. Nem de longe imaginar que naquela época, quando fui pai pela primeira vez, cederia ou me derreteria como me derreto e concedo agora. Não é só porque estou mais para avô do que para pai da Helena, mas tudo é mesmo muito diferente.

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Naquele período dos seus dois anos e meio, Helena parecia perceber isso e me amarrava, ia me dando nós com seu temperamento forte todas as vezes que tivemos um dilema pela frente. Como também sabia a hora de ser charmosa, de seduzir, cheia de caras e bocas, quando necessário.

A gente acaba ficando bom no exercício de negociar, exercitando o bom senso, mas isso só vem com o tempo.

Tem o momento de colocar limites e dar rumo nas coisas. Estas criaturas são capazes de coisas inimagináveis. Se quiserem mudam o dia que a gente programou com antecedência. Quando você menos espera, eles alteram inclusive o nosso humor, a rotina. Mudam a gente por inteiro, se deixar. E só eu sei o quanto esta mudança é grande. Só eu sei como Helena me virou de pernas para o ar.

Só agora é possível perceber que entre tantas as vantagens de ter um filho, uma delas é que a vida da gente passa a ter menos riscos quando se pensa fazendo as coisas por eles. Só para ficar mais um pouco junto deles.

Que eu ainda dure muitos anos para ver Helena crescer ainda mais, só pelo prazer de dividir estas e outras grandes histórias.

Se você programa filhos, faça logo o seu, mas se prepare para também mudar a sua vida.

 


*Sérgio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.