A quimioterapia já derrubou quase todo o seu cabelo. Ainda mantém a dentadura como se fosse seus dentes originais.

Dona Fermína (nome fictício) mente ao enfermeiro dizendo que não tem prótese dentária. Para a frase no meio… fica por algum tempo com olhar distante…pensa e retoma a conversa com o enfermeiro, criando coragem perguntando se dentadura é prótese dentária?

Ele confirma que sim. Sem falar nada, tira a dentadura, embrulha num guardanapo que o enfermeiro lhe entrega, levanta-se e enfia tudo na bolsa.

Dona Fermína vem do interior para novos exames de rotina. Exames de avaliação para avaliar o estágio da doença.

Imagem ilustrativa

Se sente desconfortável tendo que ir ao banheiro seguidamente. Às vezes não consegue completar o caminho sem o constrangimento com o que deixa pelo caminho, ainda molhando a roupa. A enfermeira procura deixar dona Fermína mais à vontade, mas ela não relaxa.

Já faz quase uma hora que estou ali com as duas. O enfermeiro que pediu para dona Fermina tirar a dentadura, entra e sai, acumulando outra função, num trabalho que acontece na sala ao lado e que não consigo identificar o que é. Chega minha vez de ir ao banheiro. É o efeito do contraste.

– O senhor precisa esvaziar a bexiga para o exame, diz o enfermeiro.

Na frente do vaso sanitário, uma recomendação: “o sanitário é de uso de ambos os sexos. Tanto homens como mulheres, devem urinar sentados no vaso. A descarga deve ser dada três vezes”, diz o aviso colado na parede.

Lavo as mãos antes de sair e no cesto de lixo vejo as fraldas de dona Fermína, cobertas por porções de papel higiênico.
Um segredo que ela ainda acredita manter. Maços de papel higiênico deveriam esconder a vergonha que dona Fermína sente em ter que usar aquilo, com uma incontinência provocada já pela idade e agora agravada e completamente fora de controle, por causa do contraste.

Penso e que a vergonha de deixar a urina pelo chão vai desaparecer, como também a dentadura guardada na bolsa. Questões que ficam menores diante da vontade de continuar brigando com uma doença invisível, que caminha pelo organismo, que judia e termina por matar.

Consigo colocar nas nossas relações – ainda que só de olhares – respeito e compreensão pelo que imagino que vivem. Elas, em especial dona Fermina, parecem me olhar da mesma forma. Aliás, ali todos se olham da mesma forma. Acho que é porque todos conhecem exatamente onde mora a dor de cada um. Tenho vergonha do olhar de cumplicidade. É que nem de longe tenho o sofrimento delas, mas aceito o carinho e tento retribuir. Nos falamos apenas nos olhando.

Os profissionais que atendem são educados e sempre sorriem. Em muitos momentos falam naturalmente de todos os constrangimentos que o câncer pode causar. Falam como quem fala com um filho, com resfriado. Os sorrisos devem aliviar a dor, o constrangimento e outros problemas que a doença traz.

Parecem se importar só com o momento. Vivem uma coisa de cada vez.

A viagem de dona Fermína até Curitiba, foi um ato heroico. Na volta, suas novas histórias serão contadas logo ali numa cidade no centro do estado, de onde veio.

Seus filhos foram descritos um a um, numa das conversas com a enfermagem e com as amigas de exame. Aos poucos fui formando a fisionomia da cada um, tamanha a precisão que dava quando falava de cada um deles. A Heloísa me pareceu a mais bonita. Seus filhos parecem lhe cercar de muito carinho. Mais que isso, lutam para mantê-la viva. Dois deles estavam lá fora, a espera do final dos exames.

Sou atendido quase junto com Dona Fermína, que tem exames mais delicados e mais demorados. Ela é levada para outra sala.

Até que o contraste se espalhe pelo organismo, minha espera passa de uma hora.

A máquina está preparada. Me tranquilizo. Minha situação é confortável diante daquele quadro. Faço apenas algumas investigações para continuar de olho num câncer manifestado há anos.

No vai e vem da máquina, fazendo o scan pelo corpo, apenas obedeço ordens de uma voz que dirige minha respiração. “Respire fundo, segure… pode soltar” é o que ouço durante quase 40 minutos.

Obrigado, dona Fermína! A senhora me fez perder o medo que sentia quando cheguei neste lugar. Agora me sinto pequeno.

Uma coisa de cada vez, não é? Sem pressa, “se não a doença te atropela”, como disse a senhora para sua amiga.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.