Pudim de leite tem gosto da casa da avó, mãe do pai. Compota de figo tem gosto da casa da outra vó, a mãe da mãe.

Mais de 50 anos depois, provar um pudim de leite ou uma compota de figo, bem feitos, é voltar no tempo e morrer de saudade.

Para alcançar o ponto que elas davam ao pudim e ao figo, só mesmo mãos muito profissionais.

Retrato em família – Arquivo pessoal

A memória do sabor me leva ao colo destas duas senhoras, uma gentil serena e de paz com o mundo, embora a vida tenha lhe dado muito trabalho, e a outra não menos ocupada com a criação de 9 filhos numa padaria que sempre rendeu o sustento de todos.

As duas com o gosto doce que a vida não deu a elas, mas que procuraram colocar na vida dos outros, pelo menos dos filhos e netos.

Assim como o sabor da salada de maionese de domingo da minha mãe e do café que todo final de tarde era a saudação na casa do meu pai à todos que chegavam, muitas vezes atraídos pelo cheiro.

Cheiros, aromas e sabores que vão ficando pela vida e que me matam de saudade. De uma gente boa, de bem com a vida, que Deus me colocou no caminho e que sou grato por ter tido a percepção de aprender a lição que deixaram a mim e à todos que quiseram e puderam aprender.

Com seus pudins, doces de figo, maioneses e cafés, uma salada da vida com tempero muito peculiar com cara de família, onde certamente não foi por acaso que aportei. Sou um pouco do pudim, do figo, da maionese e do café. Nesta mistura de vidas, muitas pra lá de centenárias, todas já em outro plano, mas ainda muito presentes e deliciosamente inesquecíveis.

Principalmente quando neste domingo, almoço e de sobremesa saboreio um pequeno figo que me levou à cozinha e ao colo de minha avó.

Num meio de tarde, acabo num café na casa de meu pai, mas ainda sentindo muita falta da maionese de minha mãe, que há exatos três meses se foi.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.

Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho.

Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.