O professor entra na sala de aula. Nós, ainda ao lado das carteiras esperando pela ordem para sentar. Como sempre fazia, coloca seu material de trabalho em cima da mesa, só que desta vez nos olha diferente.

Depois de alguns segundos, olhando fixo no olho de cada um, esperando a sala se aquietar, diz:

– Bom dia, classe! Preparei uma prova surpresa para hoje. Preparados?

Pensei – se qualquer prova já me deixa fora de controle dias antes, imagina assim de surpresa… me tirou o chão.

Sinto um enorme frio na barriga que vai subindo. Quando chega no peito, sinto o coração bater mais forte. Junto com o medo, sinto raiva do professor. Prova programada de bimestre já era difícil, agora essa, de surpresa, pensei !!!

Imagem ilustrativa

Ordena que a turma se sente. Abre sua pasta e tira de dentro um maço de folhas. Começa a distribuição de carteira em carteira. Enquanto distribuía as folhas, dizia que a prova valeria 1 ponto.

Antes que chegue em mim, de longe, percebo que as folhas são colocadas com o conteúdo virado para a carteira :

-Só vire quando eu mandar, diz ele.

Termina a distribuição e dá a ordem para virar. Viro rápido e não vejo nada. Para nossa surpresa, não havia nada na folha. A classe assustada olha para ele que de braços cruzados, encostado no quadro negro, diz:

– Façam uma redação de dez linhas sobre a primeira impressão que tiveram ao virar a folha.

A raiva e o medo que faziam meu coração bater mais forte, descem para minha mão.

Como numa psicografia começo a redação sem saber direito o que escrevo.

Pela primeira vez faço um desabafo a uma folha de papel tendo como motivação sentimentos proibidos. Nunca em minha vida pude dizer o que sentia, mas naquele momento estava autorizado.

Escrevo… escrevo… escrevo e quando levanto a cabeça, vejo alguns colegas me olhando. Eu era o último a entregar a redação. Fiz muito mais que dez linhas. O professor sentado lá na frente já fazia a leitura e parecia fazer algumas correções. Dou uma olhada rápida, tentando revisar o texto, mas sou interrompido por ele que se aproxima e me diz que o tempo acabou.

Entrego meu desabafo sem conseguir ler duas linhas. Minha redação é recolhida e com ela vai uma porção de sentimentos, sem que me lembre direito o que tinha escrito.

Minhas mãos ainda sentiam os efeitos de tudo aquilo. Fiquei com medo do resultado.

O que poderia acontecer depois que o professor terminasse de ler aquilo? Com todas as folhas em mãos, ele diz que em dois dias anunciaria os resultados e termina confirmando que a redação valeria 1 ponto.

Eu, mais do que ninguém, precisava de notas naquela matéria. Passava a torcer para que a raiva e o medo tivessem me ajudado. Que fossem claros, que fizessem algum sentido.

Ainda na escola tento lembrar do que escrevi. No recreio pego papel e caneta e tento um novo texto. Não acontece nada. Lembrei que na redação tinha sido motivado pelos sentimentos proibidos e que não estavam mais comigo naquela segunda tentativa. Lembrei que em outras ocasiões escrevia diferente. Será que só motivado pela raiva e medo escrevo desta forma? O que seria aquilo?

A única certeza que tinha era que poderia ser a minha salvação para melhorar minha média na matéria… ou não.

Dois dias depois, o professor começa a chamada da aula que seguia com a entrega da redação e a nota. Nome por nome, um por um.

Ao lado da folha entregue aos colegas, já consigo ver que no canto direito alto da página, está a nota em vermelho.

Sou um dos últimos da chamada. Finalmente chega minha vez. O professor me olha no olho ao me entregar a folha.

Depois do texto, além da nota, está um outro texto de poucas linhas:

“A vida é um presente de DEUS dado a cada um para que seja cuidada com carinho. No entanto, insistimos em valorizar o oposto disso. Se olhar bem, a vida vale muita a pena, mas ainda não sabemos entender isso. Infelizmente ainda deixamos que nossa mente seja povoada por estranhos sentimentos. Eles povoam nossa mente quando permitimos. Aprenda a lidar com eles, mas não deixe de escrever… continue assim”.

ps. a nota me salvou e recuperei o bimestre.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.