Naquela época, Helena minha filha, hoje com 9 anos, colecionava sabonetes. Sair com ela e entrar em algum lugar com sabonete para venda, tinha o pedido de reforço para a coleção. Não resistia a um Phebo colorido, com cheiro diferente. A coleção está espalhada por diversas bolsinhas e mochilas. Acho que chegavam a mais ou menos uns 100.

Depois de algum tempo, descobri que as escolhas eram feitas por cor e perfume. Sabonete precisa ser colorido, de cheiro forte e diferente.

Esta é a Helena – Arquivo pessoal

Numa gôndola de mercado, cheia de sabonetes, é como dona de casa escolhendo frutas ou verduras. Precisa pegar e dar uma cheiradinha.

Dentro da Mochila que levamos ao jogo, na estreia de Helena no Couto Pereira, lápis de cor, um pacote de biscoito e casaco para o frio que sempre pega depois das 6 da tarde.

Vamos cedo, para ter a opção de escolha de lugar. Precisamos nos acomodar com espaço para suas coisinhas, caso o jogo perca em interesse.

Na chegada, um cordão de funcionários nos espera e faz a recepção. Homens para um lado, crianças e mulheres do outro. Não havia ninguém na nossa frente.

Helena ganha atenção redobrada. Fico no cercadinho ao lado. O moço pede que abra a mochila. Faço o que ele manda. Entre papéis de desenho, lápis, casaco e um pacote de biscoito, lá no fundo dez sabonetes me olham com cara de quem também vieram ao jogo.

O rapaz da segurança me olha, pensa um pouco e diz – Sabonetes!!! – – O senhor não pode entrar com isso.

Pensei, pronto, fui flagrado com um carregamento clandestino de sabonetes, e nem é meu. Como dizer que é da minha filha?

— Ah, a coleção de sabonetes da Helena também veio ao jogo — digo meio sem graça. Se você tocar neles, se impedir a entrada deles, você é um homem morto – arrematei ao pobre segurança que estala o olho, sem entender direito o que quero dizer.

Explico que se trata de uma coleção da minha filha e sei lá porque, ela decidiu também trazer ao jogo.

— “Ou você acha que isso é meu e trouxe para jogar no bandeirinha ou no árbitro”? Ele sorri, foi bacana e me deixa entrar com o carregamento de dez sabonetes.

Tenho mais de 50 anos de Couto Pereira. Nunca imaginei assistir Coritiba x Grêmio, numa tarde fria de sábado, com minha filha, acompanhado também de uma coleção de sabonetes.

Como deram sorte, e vencemos aquele jogo, claro que os sabonetes voltaram ao Couto na rodada seguinte. Procurei o mesmo rapaz, e argumentei que os sabonetes voltaram porque deram sorte. Mais uma vez ele aceitou, mas recomendou que não os trouxesse mais, porque poderia sobrar pra ele, caso algum superior o vise me liberando a entrada com um carregamento de sabonetes. Me disse tudo isso com um meio sorriso, mas que me serviram para entender que os sabonetes de Helena não deveriam voltar ao Couto.

Coincidência ou não, de lá para cá, contamos esta história de insucessos e agora na segunda divisão (de novo).

Claro, sem os sabonetes que muitos anos depois, não sei por onde andam. Ando enlouquecido atrás deles, para ver se acho pelo menos um para tentar ajudar na mudança desta maré que insiste e não muda.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.

Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho.