A cantada em tempos de Covid-19:

– Você pode tirar a máscara, só por um instante?

Meio sem entender e um pouco sem graça, a moça atende o pedido do rapaz baixando a máscara até o queixo.

O cara olhou por uns 5 segundos e com um sorriso maroto, disse:

-Você é bonita como imaginei!

Estes tempos de Covid-19 marcam o início de novos tempos. Não fosse a politização do momento, o fim do futebol, e o período pré-eleitoral, conseguiria crer em dias menos pesados, como pesada anda a quarentena que vai sendo anunciada com acréscimos, em conta gotas.

Primeiro seriam duas semanas, depois um mês, agora a caminho do segundo mês. Em doses homeopáticas vão nos dizendo que o período será maior ainda. Final do mês que vem? Segundo semestre aos mais realistas? A ficha parece cair com o que repassam os “influencers”, muitos completamente fora do contexto, beirando a “palpitologia”, porque agora todos “entendemos” de medicina, nos deixando cada vez mais longe do que é real.

PixabayO que sei é que com um pouco de bom senso, vamos emplacar com folga o segundo semestre e mesmo assim sem a garantia de estar livre da peste. Certo é que teremos menos gente para fazer a conta de quem sobrou no final da história.

Estudos mais aprofundados, falam de períodos de restrição social até 2022, segundo cientistas americanos e canadenses.
Pela vida ou pela economia. Com humor. Com tolerância aos menos informados. Sem futebol. Sem visitas sociais. Com ou sem os políticos fazendo disto seu palanque eleitoral. Ingredientes suficientes para confundir ainda mais a confusão.
Com auxílio financeiro de 600 reais, oferecido pelo governo, mais de 90 milhões de brasileiros já deixaram de pagar algum tipo de conta. A inadimplência desenha um novo quadro econômico que nem de longe está perto de terminar.

O momento é para exercitar a paciência. O estrago já está feito. É preciso parar tudo e desenhar um novo perfil de humanidade.

Não será com Mandetta ou com qualquer outro ministro que vamos virar o jogo. O que houve em Brasília foi disputa pelo holofote da fama.

O exemplo precisa vir de cima, sem queda de braço entre governantes, é preciso sensatez e não se portar como síndico de prédio que decide fechar o play do condomínio porque o filho da dona Maria do 204, mijou na piscina.

A hora da maturidade é esta e o primeiro passo é entender que vivemos um momento único, que não vai perdoar erros estratégicos.

Estamos entregues a um poder que não entende assim. Que não é capaz de dimensionar a gravidade do momento. Os estados sobrevivem na contramão das ordens do “Capitão do Titanic”.

De todas as piadas que tomam conta das redes sociais, a mais próxima do real, é aquela que sugere ficar em casa quem quer ficar em casa e no trabalho quem quer trabalhar. Quando tudo voltar ao normal, os que fiaram em casa, ocupam o lugar dos que morreram, se expondo na rua, nos ônibus, no trabalho.

O problema vai ganhar tamanho quando os números não forem mais importantes que os nomes. Quando entre as centenas de mortos, estiver um parente seu, um vizinho, amigo ou conhecido.

Quando tudo isso passar, que leve junto os preconceitos, a arrogância, a burrice que ainda nos impede de ver o óbvio.
Enquanto ainda achamos graça num rosto bonito atrás de uma máscara, que vira cantada em tempos de Covid, estará tudo certo e continuaremos empurrando o problema com a barriga.

Deus nos salve!

 

*Sérgio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.