Não é possível que isso tenha nascido com eles. Ninguém nasce assim, com vícios de comportamento social.

Um dia alguém deve ter dito a algum político que ao cumprimentar as pessoas, o aperto de mão precisa ser dado com força. Não é verdade.

Não gosto disso e pra meu azar convivo muito com isto, com os pretendentes a uma vaga na câmara ou prefeitura, ou congresso nacional.  Alguns usam isso como padrão.

Imagem ilustrativa

Homem, mulher, velho, novo, criança, não importa, seguram firme e apertam bem a mão, olhando no olho, como se isso conquistasse alguma coisa. Pelo menos comigo não funciona assim.

O meu voto não é conquistado por esta via.

É que além de toda a dissimulação, o sorriso plastificado, a saudação sempre acompanhada de alguma palavra simpática, como garoto, meu amigo, meu irmão, nunca soa verdadeiro.

A aproximação de um deles já me assusta, espero o pior e me preparo para o momento decisivo, do aperto de mão e do olho no olho.

Daria para montar uma cartilha ou um manual de como não se comportar quando você se aproximar de uma roda de prováveis eleitores. Quem sabe seja sucesso de vendas para as próximas eleições.

Ou no mínimo pelo menos alguém diria para estes nobres cavalheiros que o aperto de mão, o olho no olho podem não funcionar e em alguns casos podendo até ser um tiro no pé, como é comigo.

Também vejo os que parecem ter nascido com aquele sorriso permanente. A conversa pode até girar em torno de algo triste, mas ele mantém o sorriso.

Na verdade ele não está prestando muita atenção na conversa. Tá de olho no entorno, com o radar ligado, para não deixar passar um possível novo eleitor.

Faço parte de uma roda jornalistas curitibanos trabalhando em outra cidade. Certa vez, mal avisado, se aproxima de nós um tal vereador.

Mal sabe que naquele grupo não há voto a ser conquistado, mesmo para uma eleição daqui a quatro anos.

Cumprimenta um por um. São seis. Todos da mesma forma. Com o forte aperto de mão e olho no olho. Termina a saudação perguntando de onde somos.

Um e outro respondem que somos de Curitiba. O sorriso seca, a mão se esvazia, o ombro murcha.

Meu vocabulário é muito pobre para definir as cenas que e seguiram numa convivência de mais de uma hora com a criatura para trabalho, não de eleitores de um candidato.

Fiquei imaginando uma figura destas em casa, entre quatro paredes ou num ambiente de trabalho.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.