O Calor é infernal. Sensação de fornalha. O lugar é mais um daqueles cantos deste Brasil, escondido lá no extremo norte, cravado num pedaço da Floresta Amazônica, que em 1914 o homem decidiu que seria uma cidade. Hoje, seus herdeiros não vivem sem ar condicionado. Todo casebre tem um. Impossível viver sem eles.

Inventaram de chamar o verão de inverno, só porque a única diferença para a temperatura do ano todo (que sempre está acima dos 30 graus) – são as chuvas de dezembro e janeiro que aliás causam muitos problemas em toda a região.

Em qualquer horário, a não ser à noite, não se vê ninguém caminhando pela calçada se não estiver protegido por um guarda- chuva, no mínimo um chapéu, isso se a caminhada for curta, de casa até a padaria, por exemplo.

O cara que corre, escolheu o período da noite para correr. Não tem sol. Levou com ele, lá pro norte, esta mania da correr. Faz bem, é saudável, aliás, prática pouco difundida por estes cantos de muito calor. Por isso tudo, o cara que corre, chama atenção pelas ruas da cidade onde pratica seu esporte.

Faz sempre o mesmo trajeto. Fez a marcação da quilometragem de carro e com isso sabia sempre quantos kms tinha percorrido. Quatro vezes por semana, lá estava ele, à noite, correndo naquele determinado trecho da cidade. Praticamente cruzava a cidade inteira fazendo seus 10 kms.

Passou a ser um sujeito misterioso. Corria com as roupas que trouxe do sul, as que sempre usou para correr na sua cidade de origem. Nada demais. Camiseta regata, ou destas mais espalhafatosas – cheia de patrocínios – calção de corredor e tênis de muitas cores, refletindo com a luz dos automóveis. Naqueles três meses que ficou por estes lados, usava um Nike, azul e verde.

Este conjunto todo, fez dele quase um homem de outro planeta naquela pequena cidade de costumes pra lá de reservados. Depois de um mês, correndo quatro vezes por semana, a cidade se acostumou com a cena. Alguns paravam pra ver. “Olha, lá vem o cara que corre’ – diziam eles. Muitas crianças se divertiam com ele. Algumas ameaçavam sair atrás., mas seguiam com ele apenas poucos metros.

Imagem ilustrativa – Pixabay

Ninguém sabia quem era. Usava boné e nunca parou pra conversar com ninguém. Aos que paravam para lhe observar correndo, cumprimentava com um ofegante “boa noite”.

Saia de casa correndo e voltava correndo. Poucos sabiam onde ele morava. No anonimato da noite, ia colocando sua saúde em dia. Como Clark Kent, trabalhava na redação de uma agência, motivo de sua ida àquele lugar. Seus colegas de trabalho sabiam de seus hábitos noturnos. Mas era uma turma diferente, que pouco relação tinha com o resto da cidade e não ligava uma história com outra. Alguns até ouviram falar de um cara que corria à noite, mas não ligaram uma coisa com a outra.

Durante aquele período, o cara que corre experimentou vários cardápios da região, todos sempre com um tipo de peixe da região. Alguns restaurantes, principalmente do centro da cidade, usavam a calçada para receber seus clientes. A fresca da rua, com cobertura para se esconder da chuva ou do sol, sempre foi um bom lugar para o almoço.

Sentado sozinho numa das mesas, bem na ponta da calçada, o cara que corre levanta-se para se servir novamente. Um bom corredor sabe quanto é importante o almoço. Combustível de todo corredor. Os peixes e a culinária da região eram a gasolina para as noites quentes pelas ruas daquela cidade em seus treinos.

Enquanto se reabastecia no buffet, do segundo prato, ergue a cabeça e percebe sua mochila sendo surripiada por um moleque de rua. O garoto devia ter uns 15 anos. Ele larga calmamente o prato e grita lá de dentro (a uns 10 ou 15 metros de distância): “larga isso, moleque ”! O menino passa o braço pela alça da mochila e sai correndo. De barriga cheia, com aquele calor, sol de rachar a moleira, passando dos 40 graus, ele começa a batalha pela recuperação da sua mochila. Era a primeira aparição do “cara que corre” em plena luz do dia, sem a sua fantasia noturna.

Logo nos primeiros metros percebeu que o menino não seria páreo para ele. O restaurante inteiro veio pra beira da calçada. No percurso de quase 400 metros, onde foi travada a batalha, as pessoas foram ocupando o meio fio.

Aos gritos, se aproximando cada vez mais do menino, ele avisava: “larga que vai ser melhor pra você”! O menino olhou pra trás duas vezes. Na segunda percebeu que seria alcançado. Era uma questão de tempo.

Quando a distância chegou a menos de uns 10 metros, o menino sucumbe. Larga a mochila no meio da rua e segue com a fuga. O cara que corre, a lá Isain Bolt, depois dos 100 metros, desacelera. O suor já escorre pelo corpo. O sol arde, a comida pesa e quase volta. Chega na garganta. Se agacha passa o braço pela mochila e começa o retorno ao restaurante.

No caminho, percebe que seu estilo inconfundível de correr lhe delatou. Aos poucos – de algumas observações feitas das pessoas que observavam sua volta ao restaurante – os comentários eram : olha, é o cara que corre!!! O frase começa a crescer e vira ovação.

Ao se aproximar do restaurante, é aplaudido por um bando de brincalhões. Vejam é mesmo o cara que corre – diz um senhor que não resiste e dá dois tapinhas nas costas do cara que corre. Como um menino diante de um ídolo, o homem parece quase pedir um autógrafo. Sem jeito, o cara que corre segue até o caixa do restaurante, puxa a sua carteira de dinheiro de dentro da mochila, pergunta quanto deve, ao caixa do restaurante. O homem diz que “hoje é por conta da casa”.

Sai, ainda sob olhares de curiosos e segue ao trabalho.

Durante meses, gastou muito mais folego cumprimentando grande parte da cidade durante a noite. Sua corrida ficou mais longa, mais lenta – ganhou um monte de amigos.