Minha primeira Maratona foi em novembro de 2001. Podia ter marcado por muitas histórias, mas uma delas foi talvez a mais importante que todas as outras. Porque uma delas talvez é mais importante, porque me mostrou que eu não era o super-homem que imaginava ser e que tinha muito aprendizado pela frente.

Depois de uns 25 kms, ou qualquer coisa perto disso, começo a alcançar a turma dos cadeirantes, que largaram meia hora antes. Foi o meu primeiro contato com eles numa competição. Diminui o ritmo e acompanho observando a concentração e o esforço de cada um.

Entre homens e mulheres, logo na entrada do viaduto da Marechal Deodoro, uma subida judiava da turma. Um deles, logo à minha frente chegou quase a parar, não conseguindo girar as rodas da cadeira, mesmo com toda a força que colocava naqueles braços. Era uma cadeira quase com estas comuns, não adaptadas para competição.

Eliziário dos Santos, o popular Motorzinho (Memorial-Santos/Foto Louzada/Semes

Instintivamente agarro nos dois apoios de trás da cadeira e começo a empurrar. Imediatamente o atleta se vira e com um berro que deve ter sido ouvido até no terminal do Carmo, ele me diz: “Tira a mão daí”. Da mesma forma que peguei, larguei. Entre todos os competidores próximos, devo ter dado a impressão de ter feito algum mau ao rapaz. Todos me olharam. E, eu com de cara de culpado, mas sem entender direito o que acontecia. Fico sem jeito tentando fazer uma leitura melhor da situação.

Passados anos, convivendo com eles em várias disputas, hoje entendo melhor, mas nunca deixando de me impressionar com cada uma das histórias que vejo e ouço. Todas muito fortes e sempre de superação. De uma superação de não sei onde tiram, mas que me servem em vários momentos da vida, principalmente agora.

Uma das mais impressionantes é da Motorzinho. Um paratleta da cidade de Santos, que num assalto tomou um tiro nas costas e até hoje carrega uma bala que se alojou entre a quarta e a quinta vértebras. Eliziário dos Santos, o Motorzinho, perdeu os movimentos das duas pernas. Na época era atleta fundista.

Ficou oito meses internado se recuperando, até que finalmente um grupo de amigos comprou a briga. Uma campanha arrecadou dinheiro e tirou Motorzinho do hospital, o que não lhe dava garantias de chance de sobrevivência. A campanha foi um sucesso, tanto que sobrou dinheiro até para pagar enfermeiros que se revezavam cuidando do Motorzinho, 24 horas. O bravo atleta melhorou e mais tarde também recupera o prazer de competir.

Em dois anos já estava pensando em voltar. Voltou. Não como antes, mas melhor.

Hoje Motorzinho é triatleta. Já competiu o triathlon em todas as distâncias, inclusive em Iron Man, a maior distância do Triathlon. Não gosta de perder. Na categoria dele, entre os cadeirantes, instiga a competição. Provoca os adversários. Nada, pedala e corre… vale ver o menino na briga por um pódio.

Tenho o prazer de tê-lo como amigo. Me ensinou muita coisa. Ele não sabe disso, mas na época que estivemos juntos em várias competições, ainda sem ser seu amigo, sempre procurei ficar por perto para ouvir suas conversas. Quando trabalhei em produção de vídeos e textos, em várias provas de triathlon, sempre dei um jeito de contar a história do “Motor”. Conversar com ele é sempre um aprendizado.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.