Por onde andam meus discos? Era uma pilha. Na década de 70, comprava um ou dois, todo mês, Na Wings, Brunetti ou Rei do Disco. Depois, numa fase de rock progressivo, comprava numa loja da galeria Júlio Moreira. Não sei há quantos anos, tudo isso sumiu. Nunca mais vi. Não sei dizer onde foram parar.

Só hoje me dou conta que tinha tudo isso. Seria capaz de comprar uma eletrola para ouvir tudo de novo. Todos eram muito bem cuidados. Sempre segurando pelo selo, ou apertando entre a palma das mãos, para não riscar. Era difícil naquela coleção achar um que estivesse riscado.

Pra você que nasceu depois dos anos 80 e não sabe muito bem o que é isso, estou falando de discos de vinil. O famoso bolachão – como a gente chamava. Numas destas mudanças que fiz em minha vida, eles ficaram no meio do caminho. Mais de cem com certeza, talvez 150. Fizeram parte de épocas. Dos meus 20 e poucos aos 30 anos, quando saí de casa. Daí pra frente não tive mais notícias.

Engraçado que sumiram como somem algumas coisas, roupas, objetos pessoais. Aquelas coisas que a gente só lembra 15, 20 anos depois. Hoje lembrei dos meus discos porque numa conversa aqui, numa proposta do amigo Nelson Martins, ele falava de discos que marcaram épocas. A primeira imagem que me veio foi da Wings e da Brunetti e num instante veio toda a história de minha vida, cada um daqueles discos marcando um período.

Lojas que também sumiram de uma hora para outra. Que fizeram parte do cenário da cidade. Junto com meus discos, algumas paisagens de Curitiba também se evaporaram. Sumiram sem que ninguém me dissesse para onde foi o tip-ti-dog, da Brigadeiro com a Comendador, do Café Alvorada, da banquinha do seu Jaime, dos finais de aula do Caça, do Divina? Do Osvaldo Iwamoto, que sem recursos previa o tempo de Curitiba melhor que muito satélite. Da Rádio Clube, na Barão, depois na Muricy. Da Rádio Independência, na galeria Tijucas. Da Boca Maldita onde se ganhava e perdia eleição. Da rodoviária velha onde embarquei algumas vezes para a Ilha de São Francisco, em viagens intermináveis nas brs-376 e 101, cheias de atoleiros. Das filas enormes na primeira sexta de maio, na romaria de Nossa senhora de Guadalupe, promovida pela Rádio Colombo.

Pra não falar das lojas HM e Prosdócimo. Acabo de lembrar de um comercial da HM: “Pneu carecou, HM trocou”. Na mesma época o Mercadorama patrocinava a hora certa na tv. Uma voz chatinha, fina e esganiçada dizia; “Mercaaaadorama informa a hora certa”.

Saudades mesmo do “Viva o futebol”, na Tv Iguaçu e Rádio Clube, com o inesquecível Dirceu Graeser, que anos antes de morrer gravou “Pássaro livre”, um sucesso (só em Curitiba).
Podia ter sobrado um tijolo do teatro de bolso da Rui Barbosa. Como podia ter vivido mais um pouco o Edy Franciosi e o Antônio Carlos Kraide, com suas maravilhosas montagens teatrais, exibidas no guairinha e guairão. Do Zé Maria Santos com seu grupo do Cefet, que junto com o amigo Ulisses Iarochinski e um outro tanto de amigos fizeram aquilo acontecer.

Todos os meus discos contam cada uma destas histórias. Cada um tem ligação com uma época. Preciso achar isso tudo. É a minha trilha sonora de Curitiba.

 

 


*Sérgio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.