Esta mesma, de Jorge Amado, mas a adaptação da novela em 1975, não o livro. Porque na época eu não sabia ler, apesar dos meus quase 19 anos. Analfabeto funcional.

Sentávamos todos em volta da tevê da casa da Tia Santa, e vivemos cada um daqueles capítulos da adaptação feita pela Globo. Escrita por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini e Gonzaga Blota. A trama abordava a seca nordestina na pacata cidade litorânea de Ilhéus.

Na época chegava a sentir o cheiro das ambientações, com os coronéis, donos do cacau baiano, e suas filhas protegidas e guardadas para casamentos arrumados. Sentia o calor baiano, no suor que escorria pelo rosto de Paulo Gracindo, Armando Bógus, José Wilker, Sônia Braga, Fúlvio Stafanini, Nivea Maria, Jaime Barcelos, Marco Nanini, Ary Fontoura e Luiz Orione.

Cena clássica da novela Gabriela, em 1975, com Sônia Braga – Reprodução

Novela era coisa de mulher, mas nós assistíamos. Não havia vergonha naquilo. Recém saídos dos encontros de jovens, convivendo com meninas menos guardadas pelos seus pais, achando que em nossas mãos elas estariam em melhor companhia. E estavam. Éramos tímidos para algo mais ousado. No máximo se dançava nas festinhas de garagem e pegava na mão. Nada além.

Nada como Gabriela, ou como na novela que foi me treinando a entender que para ser novela, antes Gabriela foi sucesso em livro, contada por um escritor famoso. Um amigo me dizia isso.

Nos caminhos de volta para casa, coisa de três quilômetros depois de mais um capítulo, com este amigo que morava perto de casa, tínhamos o mesmo caminho. A conversa era longe esticada.

Eu não sabia, mas começava ali um aprendizado sobre literatura, sobre obras premiadas, sucessos literários, escritores… um mundo que este amigo tirava de letra e que dividia com quem se interessava. Não era o meu caso, mas de tanto ouvir falar fui decorando alguma coisa. Aprendi pela repetição, fui tomando gosto. Ele sabia tornar uma história interessante. Um contador de histórias nato.

Tanto ouvi que já aprendi alguma coisa. Todas aquelas histórias faziam sentido, depois de anos sendo contadas com repetição. A novela demorou, Como sempre, novela de sucesso naquela época também ganhava capítulos a mais.

Foi então com Gabriela que este amigo me apresentou a um mundo que até ali só conhecia na tv.

Lembrei que quando criança, acho que quando comecei a ser alfabetizado, meu primeiro livro foi de Monteiro Lobato. Não achei graça, não li, não me interessei. Virou caderno de rascunho, de rabiscos.

O meu segundo livro, ganhei com quase 19 anos, era um apanhado de crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, ganhei deste amigo que se chamou Mário Giovannoni, que me abriu uma janela.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.