Vendo Brasil e Honduras me tranquilizo um pouco com a qualidade do futebol brasileiro. Pelo menos sei que Gabriel, Coutinho, Neres, Firmino e Jesus ainda existem e estão lá, bem guardados. Ainda são capazes de uma vez ou outra voltar e vestir a camisa da seleção, mostrando que temos alguma qualidade. Mesmo que tenha sido contra a fraca seleção de Honduras e que não seja aquele futebol que tivemos até bem pouco tempo.

Jogando fácil, com uma variação grande de jogadas, a goleada de 7 x 0 neste domingo (9), ainda é capaz de recuperar o meu prazer de gostar de futebol. Até de esquecer que meu time anda passando dos níveis toleráveis para quem ainda insiste nesta vida de torcedor.

Cristiane marcou três vezes e deu vitória ao Brasil na estreia – Foto: RICHARD CALLIS/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO)

Sou daqueles que meu time vem primeiro. Antes da seleção que aprendi a gostar a partir da Copa de 70, no tri conquistado no México. Justo quando meu time também vivia o auge dos seus anos dourados na sua centenária história.

Então, quando um não vai, me agarro no outro. Coisa de quem gosta de futebol, mas não é comportamento muito comum entre torcedores. Pega mal trocar de time assim.

Mas feliz mesmo fico na carona que pego com a Globo e também adoto a Seleção Feminina de Futebol que disputa o mundial na França. Já tenho duas seleções e um “meio” time.

Sei que este não é um espaço para lamentações futebolísticas, mas decidi usá-lo como forma de desabafo. Talvez para apenas poder contar que futebol oferece alegria e decepção, mas que pode e deve ter este tom de equilíbrio em caso de fracasso.

Tenho mais de 50 anos vividos em estádios, sem que tivesse usado estes espaços com outra finalidade, que não fosse torcer.

Meu domingo (9) foi ganho mesmo logo cedo, vendo a Seleção Feminina. Aquilo parecia tudo, menos futebol, tamanha a leveza e o jeito simples de jogar. Diferente dos meninos que à tarde surraram Honduras.

Como damas, as meninas brasileiras podiam fazer o mesmo com a Jamaica, mas gentis, se contentando com 3 no placar, deixaram por um modesto 3×0.

Se você gosta de futebol e se por alguma razão decidir acompanhar a Seleção Feminina no Mundial da França, jogue fora todo conceito do que você aprendeu sobre futebol.

Se prepare para ver outra coisa, menos futebol. Elas jogam diferente, tiram o peso da bola, tiram o peso do compromisso da vitória a qualquer preço, parecem não ter o compromisso com o sucesso.

É mais um bailado, com coreografias diversas, com suas maquiagens e cabelos que dão um outro espetáculo. Em suas arrancadas, dribles, divididas, faltas, cartões amarelos, não há espaço para a disputa desleal. O primeiro dever parece ser o do respeito por quem está do outro lado, também em busca de uma vitória. Parecem se comunicar com o público, também de forma diferente. Viva o futebol feminino!

Hoje já tinha gente dizendo que esta seleção não vai longe. Será uma pena se não for, mas continuarei apreciando o espetáculo das adversárias, igualmente bonito.

Não tenho time nesta Copa.

Visto o uniforme do “que vença o melhor”e que as tvs comprem definitivamente esta ideia de nos mostrar este novo esporte.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.