Deixo o carro a uma distância bem razoável e decido caminhar o resto.

Sigo o fluxo e pelas calçadas comigo seguem famílias, filhos, senhores, mães, casais…

Na minha frente segue um casal novo com o filho de uns dois anos. A criança vai carregada no colo do pai. Estou a uns dois metros deles e caminhamos no mesmo ritmo. Isso me deixa próximo o suficiente para perceber a alegria dos três.

Foto arquivo – Banda B (Geraldo Bubniak/AGB)

No meio do quarteirão são perguntados por uma senhora que está entrando numa casa, abrindo o portão .

– É contra quem, hoje? Pergunta ela. – Vamos jogar contra o Rio Branco de Paranaguá, responde o casal.

O rapaz mal conclui a resposta e a criança ergue a mão para o alto e balançando o braço parece cantar um grito de guerra. Não consigo identificar letra e música. Aperto o passo, me aproximo e vejo que o pai incentiva a criança cantando junto. Pai, mãe e criança brincam com a cantoria. Ele com a camisa número um do Coritiba, ela com um modelo que não identifico que, de tão desbotada parece bem antiga. A criança veste um macaquinho verde, com o emblema do clube no peito.

Seguimos passando por vendedores ambulantes que oferecem aos gritos churrasquinho, bandeiras e camisas.

Chegamos a um quarteirão do estádio. Eles tomam o rumo de outro portão de acesso. Sigo pela rua Amâncio Moro. Percebo mais famílias, mais pais, mães e crianças.

Preparo os documentos que sei que me pedem na entrada, na passagem pela catraca. Passo a carteira de sócio no leitor magnético e lá está meu nome. A moça diz, “boa noite seu Sérgio, seja bem vindo”. Me sinto importante com a saudação. Começo a subir a rampa. Na minha frente mais crianças que pedem ao pai para que se sentem na parte de cima do setor das cadeiras. O pai diz que precisa sentar no mesmo lugar de sempre, para dar sorte.

Depois de muitos meses estou de volta ao Couto Pereira. Me passa rapidamente pela cabeça o sofrimento das últimas rodadas do brasileiro. Lembro da última ida ao Couto, partida contra o São Paulo, jogo e ano que nos colocaram na segundona, de volta. Esqueço logo.

Dou de de cara com o gramado e novas cenas de famílias – crianças e pais se acomodando na arquibancada.

É o ano começando para o Coritiba e para todos nós, torcedores. Uma alegria que me pega de jeito e mais uma vez me faz voltar no tempo em que era criança, quando comecei a frequentar o Couto, na época Belfort Duarte.

No gramado os jogadores fazem aquecimento. Fico observando com uma turma de torcedores que concentrados, sem dizer uma palavra, fazem o mesmo.
Todos pareciam comungar do mesmo prazer de finalmente estar ali, em torno de uma paixão.

Procuro na arquibancada um bom lugar para me acomodar. Rapidamente faço a opção de continuar de pé, só contemplando, deixando a cabeça passear.

As famílias estão de volta aos estádios. Parece que todos dentro do mesmo espírito de confraternizar a alegria de estar ali, saudando um novo ano do nosso querido e gloriso Coritiba.

Em campo não somos correspondidos. Novatos e veteranos parecem tentar pegar o sentimento que vem da arquibancada, mas o resultado final não é o esperado.

Aos mais otimistas, fica o sentimento de um longa temporada. Como há dois anos não tínhamos.

Não só pelo resultado, mas muito mais pelo sentimento que estava no ar na noite desta quinta-feira , no Couto Pereira, valeu pela volta das famílias.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.