Ainda não tinha ouvido assim, em tom de pergunta. Nunca ouvi ninguém perguntar pra ninguém assim, se seu Natal foi feliz?

Achei simpático e sincero partindo de quem partiu e da forma como perguntou. Era uma senhora perguntando a uma enfermeira, na saída de uma consulta médica, hoje pela manhã.

Pelo que percebi a pergunta também surpreendeu a própria enfermeira. Foi de bate pronto, fixando o olhar até que a resposta fosse dada. A senhora ficou firme à espera da resposta. Sem graça, balançando o ombro, com um meio sorriso, a enfermeira disse sim, mas pouco convincente. Ainda desajeitada, sem saber direito o que fazer, baixa a cabeça. Retoma a conversa e encara a senhora que diz ainda firme – Só quero saber se seu Natal foi feliz, minha filha!?

Imagem Pixabay

Hoje deveria sair daqui lhe desejando feliz ano novo e ir embora, mas antes preciso saber se seu Natal foi feliz.

A pergunta com tamanha insistência, me deixava cada vez mais surpreso. Como também a enfermeira.

Em tom mais baixo a senhora murmura algo que não consigo ouvir. A enfermeira sorri.

Demonstrando mais segurança, levantando a cabeça e tentando também olhar no olho da senhora, permite o início de um diálogo. Falam de sonhos, amenidades para 2020, imagino.

A esta altura já com jeito de velhas amigas, a senhora segura a mão da enfermeira e segundos depois, com as duas mãos como se agasalhasse a mão da enfermeira com a dela, se aproxima e murmura mais uma frase que também não consigo ouvir. Aquela cumplicidade me encheu de alegria. Aquela mulher era absolutamente sincera. Não só na pergunta, mas em tudo que fazia e dizia.

A história ganha mais peso porque acontecia numa sala de emergência de um hospital. Solidariedade num ambiente como este é mesmo o sentimento adequado e muito bem vindo, neste caso de uma paciente a um profissional da área da saúde. As posições pareciam invertidas, para deixar a cena ainda mais inusitada.

Olho para os lados e em outra maca um rapaz recebe soro e também observa a cena. Mais na frente, uma outra senhora sentada numa confortável poltrona também se encanta com o que vê.

Antes de ir, a senhora ainda diz mais alguma coisa para a enfermeira. Larga a sua mão e começa a sair. Para chegar até a porta de saída, precisa passar por mim. Se aproxima, o me olha. Vestia um casaquinho rosa, num tom bem suave, como suave era aquela figura. Me sorri com o mesmo sorriso que sorriu para a enfermeira. Retribuo já completamente encantado. Estende a mão esquerda e me diz :”Bom ano, moço”! Não consegui dizer nada. Continuo sorrindo e observando a saída da senhora. Gostaria de encontra-la no final de 2020 e da mesma forma, assim como a enfermeira, só para ter a oportunidade de responder que tive sim um bom ano.

Saio dali acreditando nas pessoas. Se anjos como este cruzarem meu caminho durante o ano, com certeza terei sim, um belo 2020.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.