Somos todos “piás” para o Clodoaldo. Qualquer pessoa da sua relação é piá. Expressão típica curitibana, que não são todos que ousam usá-la porque dependendo de como é usada, pode ficar estranha.

Piá, mesmo que não seja o menino que supõe, deixa a relação mais íntima quando se trata de marmanjo para marmanjo, mas desde que sejam próximos. Do contrário fica vulgar.

O Clodoaldo é um dos que pode usar a expressão em qualquer situação. Piá orna com o tipo do Clodoaldo. Um cara baixo, gordinho tipo pançudo, expressão simpática no rosto, daqueles que parece sempre sorrir. Frio ou calor, tá sempre de camisa de manga curta. Clodoaldo é muito agitado, tão agitado que é a maior marca da sua personalidade, depois de chamar todo mundo piá, claro. É uma agitação diferente, daquelas quando você precisa usar o banheiro e o encontra fechado, entende, né? Este é o Clodoaldo. Um empresário do ramo da estofaria.

Nosso primeiro contato foi por telefone. Foi logo me chamando de “piá”.

Liguei por indicação de um amigo dele que conheci quando procurava por um estofador. Piá pra lá pia pra cá, combinamos finalmente de nos conhecer. Clodoaldo foi em casa no dia seguinte fazer o orçamento do trabalho que eu precisava. Claro que chegou atrasado e esbaforido – “desculpa pelo atraso, pia”, disse ele. Confesso que nos primeiros piás,- os do telefone, me pegaram de surpresa, mas os piás do primeiro encontro, achei simpático. E assim começou a nossa história.

Imagem ilustratitva: Pexels.com

Dois dias depois, Clodoaldo reaparece com seu parceiro que até agora não sei o nome. Um magricelo comprido, metido a engraçado, muito provavelmente motivado pelo Clodoaldo. Mas o magricelo foi coadjuvante. Boa gente, mas todas as cenas seguintes não precisavam dele, a não ser para também ser chamado de “piá” e ajudar o Clodoaldo no trabalho.

Os dois começaram a desarmar o sofá cama para carregá-lo numa camionete que mais parecia aqueles carrinhos de brinquedo, que a gente vê na praia, vendendo churros, os Twingo. Era muito pequeno para tanto sofá, mais o Clodoaldo e seu piá lá dentro. Claro que a cena dos dois desmontando o sofá teve sua graça. O sofá despencou umas três vezes no pé do Clodoaldo. Uma dezena de parafusos e encaixes foram suficientes para botar humor na operação. Curioso é que em nenhum momento me passou pela cabeça que tinha entrado numa fria contratando o serviço do Clodoaldo. Não tinha motivo, mas confiava nele.

Tudo combinado, tecidos escolhidos, o sofá sai de casa e pela janela aprecio a dupla ainda brigando com o sofá, agora na calçada. Dois dias depois, Clodoaldo e seu piá/funcionário, ainda tinham uma tarefa a mais comigo. Pegar mais um sofá e uma poltrona também para reforma, que estavam na casa de minha mãe. Foi naqueles dias de muita chuva. Mas foi tudo dentro do que se pode chamar de normal. A operação só se complicou um pouco quando o sofá teve que sair da edícula e ser carregado até o “carrinho de brinquedo ”, debaixo da chuva. Depois de alguns escorregões, grama molhada, poltrona escapando da mão, descubro que Clodoaldo ainda tinha um vocabulário vastíssimo de palavrões para me oferecer. A certa altura o Pia/funcionário de Clodoaldo, lembrou que eles tinham no carro um plástico grande que trouxeram exatamente pensando naquela situação, mas a esta altura o sofá já estava todo molhado, não precisava mais de proteção. “ só agora você me lembra disso seu fdp – arrematou Clodoaldo.

Como num passe de mágica, Clodoaldo mexe daqui e dali e mais uma vez me surpreende conseguindo colocar o sofá no carrinho de churros. Se despede com o clássico “piá”.

Só o encontro 20 dias depois. Me liga dizendo: o teu trabalho ficou lindo piá, quando posso entregar?

Serviço sendo entregue, vejo que de fato o sofá maior, que era amarelo e ficou preto estava mesmo muito bonito. O difícil era a operação da montagem, mas me chama atenção o sofá pequeno que não precisava de montagem. Foi descarregado na sala e percebo que ele ganhou dois braços que não tinha, além do tecido que não sabia bem ao certo se era aquele mesmo. Como o Clodoaldo estava envolvido com a montagem do sofá maior em outro cômodo da casa, perguntei ao piá/funcionário se aquele sofá, o menor, era mesmo o meu? Seguro, ele me responde que sim. De fato se parecia, mas não era. O “pretinho” que me acompanhou por longos anos, eu conhecia bem.

Tive que importunar o Clodoaldo entretido com a montagem do maior. Vejo Clodoaldo com sangue escorrendo pela perna. Levou um “coice”, como disse ele, de uma das molas do sofá. Ali eu já não sabia se socorria o Clodoaldo ou reclamava meu sofá. Continuei minha exposição sobre a tese do braço do sofá que era o que diferenciava o meu sofá “pretinho” daquele que Clodoaldo me entregava.

Confusão feita ele senta no “pretinho” e diz olhando para seu parceiro “Piá, fizemos cagada. Este sofá é do Robson”. Ligou para a estofaria e pediu para falar com o Ailton. Clodoaldo ainda sangrando na perna faz três perguntas ao Ailton que definitivamente confirma que aquele sofá que me entregava era mesmo do Robson e o meu estava na bancada, sendo montado pelo Ailton. Clodoaldo ordena que Ailton parasse imediatamente tudo e que logo estariam lá para ver o que fazer. Se desculpou comigo algumas vezes, todas elas com o piá abrindo a frase.

Se Clodoaldo mentiu uma vez, foi numa destas frases, quando disse que aquilo nunca tinha acontecido. A confusão de troca de cores, tecidos e sofás e de donos de sofás me pareceu fazer parte da rotina dele. Se comprometeu comigo de dois dias depois me entregar o meu verdadeiro sofá pretinho. Foi o que aconteceu.

Dois dias depois recebo o meu ex -pretinho, agora rajado. Na entrega Clodoaldo ainda precisa de ajuda com seu carrinho de brinquedo que fica enviesado na calçada (alta) e perde a tração na roda traseira.

Eu, o Pia, e mais dois pedreiros solicitados na casa ao lado, precisamos subir na carroceria para fazer peso e finalmente colocar a roda traseira em contato com o chão. Sofá entregue, se desculpa mais uma vez e antes de ir embora levanta a barra da calça para me mostrar um enorme curativo feito na perna machucada. O “coice” da mola custou três pontos na canela de Clodoaldo.

A estofaria do Clodoaldo fica na Brigadeiro Franco, 1215. Se chama ESTOFARIA EXCLUSIVA. Passa lá pra conhecer a figura.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.

 


*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.