Entro na sala para um cafezinho de final de tarde, quase encerrando o expediente, que ainda é seguido de mais um conversa para ser jogada fora. Assim como quem espera a hora para pegar o bonde para casa. É exatamente quando ouço o telefone tocar e Salete, dona da sala, segue para atender.

Ela atende e já com o outro aparelho tocando, também atende com a outra mão, me faz sinal para eu atender com quem já conversava na primeira ligação.

Não entendo direito o que devo fazer, mas atendo. Obedeço o aceno que ela faz com a mão, dando ordens para conversar com quem está do outro lado da linha.

 

– Alô!

– É o Super Homem? Diz uma voz infantil parecendo ser de um menino.

– Sim, é ele, digo eu!

– Puxa, que legal! A moça com quem eu falava disse que não era este número.

– Não, é este número sim! Sou eu mesmo, pode falar.

– Onde você mora, Super Homem?

– Moro no céu, nas cidades, nas estrelas, nos planetas. Onde tiver trabalho, lá estou eu.

– Puxa, que legal! Você não pode passar aqui em casa agora para me levar para um passeio?

– Não posso! Agora estou aqui na televisão gravando as aventuras que você assiste aí, na sua casa. Não posso agora, mas quem sabe outro dia. Liga outra hora, pode ser?

– Pode! Quando posso ligar?

– A hora que você quiser. Vai depender da sorte de me encontrar aqui.

– Puxa, como você é legal! Meus amigos não vão acreditar quando eu contar para eles que conversei com você. Nem meus pais também não vão acreditar. Eles saíram, mas quando voltarem para casa vou contar que conversei com o Super Homem, disse o menino muito entusiasmado.

– Qual é a aventura de amanhã, me pergunta ele.

Eu não tinha a menor ideia, mas não podia decepcionar o menino. Rapidamente me viro atrás de alguma resposta e encontro num rápido cochicho que faço com Salete que me olha com cara de quem entende o que está acontecendo, com um baita sorriso, numa cumplicidade de ter dado um rumo inesperado, mas feliz para uma história inocente.

Tenho enfim uma breve sinopse do seriado que a tv vai colocar no ar, no dia seguinte e repasso ao menino.

No dia seguinte, depois de assistir a tal série, provavelmente o meu fã se arrepiou ao ver exatamente tudo que lhe disse que ia acontecer. Espero que tenha chamado os amigos para assistir junto, e se gabado, adiantando aos colegas o que aconteceria na série, porque no dia anterior o Super Homem lhe contou tudo.

Não sei se os meninos de hoje ligam para as tvs para conversar com o Bem 10 ou outros heróis da época. Espero que sim. Como também espero que do outro lado tenha um apresentador, repórter , redator ou qualquer funcionário, disposto a gastar alguns minutinhos para fantasiar os sonhos de um menino inocente, que aliás, nunca mais me ligou.

Provavelmente, quando souberam, seus pais lhe proibiram de fazer nova ligação, mas espero que não tenham estragado seu sonho de ter conversado com o Super Homem.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.