Roubei umas balas da minha filha. Assim que coloquei a primeira na boca minha memória do paladar voltou uns 50 anos. Minha mão e boca ficaram com o gosto e cheiro das “Balas Zequinha”. O cheiro e a lembrança da bala e de tudo daquela época.

O armazém do seu Tomita onde elas eram compradas, as situações do personagem Zequinha, o dinheiro e até o estojo que era usado para guardar as figurinhas. Muito mais importantes que a bala, para muitos.

Não lembro o nome do fabricante, mas a bala da minha filha tem a licença da Disney, com nome de balas do Mickey e Minie. Não podia imaginar há quase 50 anos que hoje toda a tecnologia com corantes acidulantes, conservantes e todos os “antes” misturados teriam o mesmo gosto daquela inocente bala, feita artesanalmente, provavelmente no fundo de algum quintal.

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Hoje, não dá para imaginar algo sendo comercializado assim. Sem registro de patente, fiscalização sanitária- é prisão na certa.

Não fui dos aficionados colecionadores, até porque não tinha poder de fogo no bolso para visitar o armazém do seu Tomita como gostaria. Junto com o cheiro da bala, também veio o cheiro das bananas que ficavam penduradas em pencas, logo na entrada do armazém.

Ali, hoje está a Cinemateca, onde depois do seu Tomita o comércio passou para as mãos do seu Resende, um fumante inveterado, que carinhosamente nos recebia passando a mão em nossas cabeças.

Seus dedos amarelados do Belmonte ou Continental sem filtro, ainda tinham a unha do indicador um pouco mais comprida que as outras. Se o cigarro não estava entre os dedos estava pendurado entre os beiços amarelando o vasto bigode.

Às vezes, dona Helena, mulher do seu Resende, uma senhora baixa, sempre muito braba, atrás do seus enormes óculos de lente esverdeada, dizia ao marido para não tocar na cabeça das crianças. É que as crianças quase sempre estão com piolho e não ficava bem tocar nos alimentos depois do afago em nossas cabeças.

Como era difícil tomar banho naquela época. O inverno de Curitiba era mais rigoroso que agora. A água gelada batia no corpo como pedra arremessada. Por isso, também doia ouvir que minha cabeça podia ter piolho. A mãe obrigava a gente a tomar banho e lavar a cabeça todos os dias.

As manhãs de inverno da cidade das Balas Zequinha, do seu Tomita, do seu Resende, marido de dona Helena, eram muito frias mesmo. Cinco ou seis quarteirões de camadas de gelo no caminho até a escola. A geada também dói! A meleca que escorria do nariz congelava em cima do beiço.

No recreio, o lanche muitas vezes foi uma bala- Zequinha – que serviu de troco no dia anterior quando a mãe mandou comprar pão e leite no seu Tomita.

Uma vez seu Tomita vez levou uma bronca do meu pai por ter me vendido uma bombinha de 50 que já tinha combinado com um amigo de detonar na porta da vizinha. Dona Laura, uma senhora que não gostava de futebol e nem de crianças. Ela furava todas as nossas bolas que caíam em seu quintal.

Hoje, minha filha tem outros problemas, bem diferentes dos que tive há 50 anos, e a bala dela só se parece, não é uma legítima Zequinha.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.