Sou do tempo que o ensino fundamental era chamado de primário. Bem no começo, não lembro bem, mas deve ter sido lá pelo primeiro ou segundo ano, tive um grande amigo. Se chamava Rubens. Amigo de sala de aula e de recreio. Era assim que a gente se relacionava porque não havia telefone e nem internet para se falar ou se ver.

Tinha o Rubens e mais uns outros guris, mas Rubens era o melhor dos amigos. Sei que morava longe, porque sempre reclamava que tinha que levantar cedo, às 5 da madrugada, para chegar na escola às 7 horas.

Estamos falando de uma Curitiba da década de 60, com meia dúzia de carros e quase ninguém pelas ruas. Duas horas de um ponto a outro, era uma distância bem razoável que eu não conseguia dimensionar. Minha referência de grande distância era a viagem que a gente fazia para chegar até a praia, no período de férias. De carro durava mais de 6 horas. De ônibus uma eternidade.

Foto: Pixabay

Pensava que Rubens morava quase na metade do caminho para a praia. Tinha uma grande viagem, todos os dias só para chegar na escola, Centro de Curitiba. Não lembro de uma falta de Rubens na escola. Estava lá todos os dias.

Passei a levar em consideração o esforço de Rubens, antes de reclamar dos 5 quarteirões que tinha para caminhar de casa ao Grupo Escolar Professor Cleto, quebrando gelo no rigoroso inverno curitibano da época.

Rubens chegava antes. Quando eu dobrava a última esquina, a 100 metros da escola, lá estava o Rubão, no portão me esperando para a gente entrar junto. De longe era possível ver no portão da rua Julia da Costa, aquele menino negro, vestindo guarda-pó branco, assim como o seu sorriso, de dentes tão brancos que reluziam.

A cor negra de Rubens nunca me chamou atenção. Nunca nem sequer me passou pela cabeça questionar porque eu era o único amigo próximo de Rubens. A não ser quando uma vez fomos juntos ao banheiro e urinando lado a lado, pela primeira vez vi um pinto preto. Aquilo sim, foi estranho. Tão estranho que ao chegar em casa, na inocência, contei para minha mãe. Antes de terminar de descrever a cena, lembro bem da gargalhada dela. “Claro que o pinto dele também é preto. Você achou que era igual ao seu”? – disse ela ainda sorrindo. À noite virei piada no jantar quando a história foi contada ao meu pai que chorava de dar risada. Enfim, virei piada na família, que durante anos me provocou com esta história.

Das outras vezes que dividi outras urinadas com Rubens, não olhei mais para o lado.

Mesmo com pinto preto, Rubens ainda era meu melhor amigo, mas a partir daquele dia entendi um ser humano inteiro negro. Entendi que havia diferenças de cor, que eu era de uma cor e Rubens de outra, mas aquilo me fazia entender também porque eu era o único amigo de Rubens.

Passei a prestar atenção no tratamento que recebia não só dos colegas, mas de professores e da direção da escola. Nunca tocamos no assunto. Rubens nunca reclamou ou tratou aquilo como anormal. Provavelmente porque se acostumou com a diferença que os outros viam, mas eu não. Nem em casa, nunca me perguntaram porque eu tinha um amigo negro.

Depois de algum tempo, passei a sentir piedade de Rubens. Piedade que logo joguei fora porque Rubens era um menino alegre, feliz e nunca reclamou da sua negritude. Nem nunca implorou amizade de ninguém ou clemência aos professores. Sempre deu conta do recado. Senti vergonha da minha piedade.

No ano seguinte fui mantido na mesma escola. Rubens também, mas fomos colocados em turmas diferentes. Seguimos com nossa amizade, nos encontrando no recreio. Dividíamos merenda, conversas, interesses em comum.

Passei a ser discriminado pelos outros colegas por abrir mão da amizade deles, para ficar com Rubens. Não me importei. Primeiro achei que era ciúmes bobo. Depois descobri que eles entendiam que jamais poderiam ser trocados por um negro. Passei a ser ameaçado com bobagens e também discriminado. Eu e Rubens nos protegíamos. Na fila da cantina, durante o recreio, na aula de educação física que tínhamos junto etc.

No final do ano, Rubens me avisa que não voltaria no ano seguinte. Seus pais finalmente tinham conseguido vaga em outra escola, perto da casa dele. Finalmente Rubens não precisaria sofrer mais levantando às 5 da manhã. Eu não sabia se comemorava ou ficava triste.

Nunca mais vi o Rubens, nunca mais soube dele.

Só sei que aquela escola me ensinou, entre muitas coisas, também como nasce o racismo.

 


*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.