*Todos os nomes aqui mencionados, são fictícios.

– Teatro Guaíra, por favor!

– No grande ou pequeno auditório?

– Não sei! Nem sabia que tinha esta escolha.

– Tem também o miniauditório. Eu pergunto porque se for no mini, a entrada é pela Amintas de Barros. Se for o Salvador de Ferrante, a entrada é pela XV e se for no Bento Munhoz da Rocha- o Guiarão, a entrada é pela Santos Andrade.

– Nossa, como o senhor sabe tudo isso?

É que já trabalhei nos três, como ator e também na plateia, assim como você que gosta de teatro e vai assistir.

– O senhor foi ator?

– Digamos que num período curto de minha vida. Na verdade conheci os três auditórios como jornalista.

– Ah, o senhor também é jornalista? E nas horas vagas faz Uber, por que?

– Porque preciso.

– Mas continua sendo jornalista?

– Não, minha profissão quase não existe mais.

Reprodução EBC

Em três meses rodando Curitiba, também já ouvi Juliana conversar veladamente com Carol. Falavam baixo sobre colegas de trabalho, como se eu fosse um deles e na primeira oportunidade contaria pra alguém segredos das duas. No meu próprio carro, me senti um intruso.

Triste foi saber das dificuldades que vem passando Luana, com seu bebê nascido prematuro. Nos últimos 27 dias, transformou a UTI neonatal de um hospital da cidade, em sua casa. Muito ruim não saber agora como estão ela e a criança.

Carolina também vive situação semelhante : teve gêmeos prematuros. Um deles não sobreviveu. O outro, com problemas no coração, briga pela vida. Carolina só vai para casa para tomar um banho e em seguida retorna ao hospital. Há dias assim. Seu tom de voz e semblante denunciam cansaço. Nem assim seu plano de saúde dá sossego. Pede uma entrevista com ela para confrontar as informações, julgando que as despesas hospitalares estão acima da média.

Os problemas de Carolina e Luana são desesperadores. Não falam sobre o assunto sem chorar. Mães em aflição, tentam salvar filhos indefesos. Brigam bravamente pela sobrevivência de suas crias. Apostam que ainda vão fazer valer finalmente o papel de mãe. Ainda não percebem que a briga pela sobrevivência dos filhos faz delas muito mais que mães.

Por aqui desfilam pessoas e suas histórias. Algumas desabafam, outras garganteiam peripécias. Outros preferem o silêncio. Como se isolassem do mundo lá de fora. Um desfile de retratos da vida de cada um.

De dona Tereza que entra no carro aos gritos, pedindo pressa no atendimento ao Smart, seu cachorro com a traqueia fechando, impedindo que o animal respire. Corremos para a clínica veterinária. Também não sei se Smart ficou bem.

Mas também tenho boas notícias, trazidas por dona Justina, que sai do trabalho tarde da noite, mas chama o UBER só para levá-la até o Terminal Guadalupe, ali pertinho. Um prazer que ela não esconde. Andar de carro, com ar condicionado ligado, e porque custa pouco mais de 3 reais. Seu sonho é um dia chegar em casa de carro, sentada no banco de trás, mas Almirante Tamandaré é longe e aí a viagem seria muito cara. Um dinheiro que ela ainda não tem. “Mas tá bom assim, até o terminal do Guadalupe”, como diz ela.

Aqui também já carreguei aquele tipo que acha que pode tudo, só porque está pagando, mas também carreguei, polacos curitibanos, loucos de amor pela cidade, falando com orgulho das variações climáticas, típicas em Curitiba. Alemães, italianos, africanos, japoneses, americanos, haitianos, e refugiados que escolheram esta cidade para ser acolhido. Curitiba dos universitários que fazem graduação na Puc ou Ufpr. Negros brancos empregados e doutores que me dão o prazer de uma prosa.

Curitiba têm muitos carros circulando o dia todo. Os horários de pico estão insuportáveis.

Logo, a cidade vai precisar se reinventar, se replanejar. Deixe seu carro em casa, venha me contar sua história. Se quiser, respeito seu silêncio. Seja o que for, prometo sigilo absoluto!

Ah, um dia ainda realizo o sonho de dona Justina, levando ela até Almirante Tamandaré, com ar condicionado ligado, com tapete vermelho até a porta de sua casa e tudo que ela tem direito.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.