Bem- Hur, Os Dalmatas, Sissi a Imperatriz. Muitos épicos do cinema faziam a matinada do Cine Mercês, aos domingos.

Depois do almoço, tia Lúcia se enchia de coragem agarrava nas mãos de cada um de nós e seguíamos o caminho do cinema. As vezes, tio Eduardo ou tia Santa nos levava. Tio Eduardo com seu velho Dodge verde, ou no fusca marrom da tia Santa, onde cabiam seis, sete … as vezes oito crianças e mais dois adultos, o motorista e ainda tia Lucia, a promotora da festa. Dependendo do sucesso da fita eram duas viagens.

Lá dentro, a ansiedade tinha cheiro de balas de goma, de Mentex, de chicletes de hortelã.

Imagem: culturamix.com

A gente não era assim um exemplo de comportamento, mas como era com a Tia Lúcia, a recomendação para um bom comportamento vinha de casa. Se pisasse na bola não teria a segunda vez. Sentados um do lado do outro, sempre à direita, no primeiro balcão. O coração batia mais forte quando as luzes se apagavam. Parecia o começo de um mundo novo. A fantasia da tela era real. Os olhos mal percebiam o que acontecia ao lado. Nem os engraçadinhos do assobio, da gritaria, tiravam a atenção da gente.

Com pouco mais de seis ou sete anos, a magia da tela era mesmo um mundo criado como um sonho. Estragaria tudo se imaginasse um projetor, uma película, um exibidor, um funcionário que fizesse aquela parafernália funcionar. Era sentar, esperar a luz apagar e deixar o sonho vir. Anestesiado, em estado de graça sentia o coração na garganta. Às vezes acho que a gente até esquecia de respirar.

Sabia que o filme estava acabando pela trilha. Um pouco mais emocional ou uma batalha épica era o fim de tudo. Acabava ali o fim de semana. Dali pra frente era o sofrimento do enterro do domingo, assim como a voz do Faustão nas tardes dos domingos de hoje.

Tia Lúcia ainda nos levava para o resto da tarde em sua casa, onde estavam todos. Família grande é assim. Pai, mãe, irmão que não foi ao cinema, primos mais velhos, primas que já tinham outros interesses.

Com todo este batalhão, era fácil ter um aniversário pelo menos uma vez por mês. Aquilo era perfeito. Depois do filme ainda uma festinha como arremate. Todas as tias, tios e primos por perto para uma bagunça derradeira.

Estas crianças já são pais, tios e tias de hoje. Já não vão mais ao cinema e raramente levam seus filhos nas salas de shoppings. Por uma questão de segurança, hoje os cinemas são assim, nos shoppings.

O Cine Mercês foi demolido. A última vez que estive ali, foi na festa de casamento de um primo. Eu também não vou mais ao cinema. Não sinto mais o coração na boca nas poucas vezes que fui, mas ainda consigo me transportar para lá, quando sinto cheiro de mentex, ou chicletes de hortelã.

Tenho saudades de Tia Lúcia. Dos domingos na sua casa.

NOTA

O Cine Mercês ficava na Avenida Manoel Ribas, ao lado da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Para enfrentar as dificuldades financeiras da paróquia, Frei Salvador Casumaro decidiu transformar o salão paroquial das associações religiosas em Cine Mercês. Depois da necessária adaptação, conseguiu comprar máquinas cinematográficas na Itália. Apelidado o cinema dos freis capuchinhos, a iniciativa conseguiu manter-se atuante somente por alguns anos. O salão foi alugado para outras finalidades e, finalmente, fechado, em 25 de dezembro de 1975.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.