O ar de autoridade impunha respeito. Pelo menos tudo fazia crer que sua presença, com toda a pose que tinha, devesse impor algum respeito.

Mas o flagrante no invigilante segurança, tirou tudo que ainda restava, onde poderia se supor alguma autoridade. E mesmo que houvesse, foi embora, junto com seu celular.

Ele ainda ficou com um sorriso frisado no rosto, depois de provavelmente digitar a última mensagem, antes que aquele menino rapidamente arrancasse de sua mão o aparelho, como uma águia no ataque a uma presa.

Só lá na frente, já alguns quarteirões adiante, o menino ainda dá uma olhada para trás para se certificar que mais um furto estava praticamente liquidado e com absoluto sucesso.

Imagem ilustrativa – EBC

O pobre segurança colocado ali para vigiar um punhado de lojas numa galeria, no centro de Curitiba, além do celular, também perdeu um pouco do crédito que lhe restava, diante de seus patrões.

A expressão de impotência, anulou completamente o ar de autoridade, que ostentou até ali.

Seu uniforme azul petróleo, carregava em cima do bolso esquerdo da blusa, um desenho grosseiro do brasão da república, também com uma águia em cima do bolso, do lado direito. Nas costas um bordado desbotado escrito SEGURANÇA.

Talvez as botas cano alto tenham impedido a corrida, atrás do menino que levou seu celular. O segurança não deu um passo à frente. Imóvel, sem reação, com um sorriso sem graça e agora também sem celular.

Mais adiante, lá na frente, quase dobrando a esquina, o menino ainda dá uma olhadinha para trás, já quase caminhando e cinicamente sorri como quem faz um gol, depois de driblar a defesa e o goleiro. Se vira de costas e empurra a bola pra dentro do gol de calcanhar. Sabia que já podia comemorar mais um furto, sem intercorrências.

Foi só mais uma cena entre tantas outras, já muito comuns, pelas cidades por aí.

Mais um entre tantos crimes muitas vezes registrados apenas pelos olhos atentos de passantes, mas também já sem o impacto de antes, porque já nos acostumamos com tudo isso.

 

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.

Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho.

Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.