Uma lembrança de alguns anos atrás, do Facebook, me trouxe uma história que divido agora com vocês:

Como todas as manhãs, entre 8 e meia e 9 horas saio para o meu passeio com Helena, minha filhota de 2 anos e 2 meses. Caminhamos dois quarteirões. De casa até a Igreja do Rosário, para ver as pombas, gente dormindo pelas calçadas e o “cavalo babão”. Apesar da pouca idade, Helena sempre parece perturbada com os moradores de rua dormindo na calçada. Diminui o passo, quase para, observa longamente cada um, mas nada pergunta. Parece hipnotizada com a cena. Como nada pergunta, me mantenho também em silêncio.

Na sexta-feira, saindo da Trajano Reis, chegando na esquina da Igreja, um carro da polícia estaciona em cima da calçada. Descem dois policiais. Penso em voz alta: estes caras podiam parar como todo mundo, no meio fio. Tem lugar, não há nenhum motivo que justifique o carro em cima da calçada. Isso é abuso de poder, completei meu raciocínio, resmungando. O problema é que Helena repete exatamente o mesmo texto ao passar em frente aos dois policiais. Fiquei sem graça, claro. Embora fosse engraçado uma baixinha daquelas que nem fala direito, dando esporro em dois galalaus… não esboçaram nenhum sorriso. Ainda me olharam com cara de quem repreende o adulto que não educa a criança. Como se eu tivesse mandado ela dizer aquilo.

‘Cavalo Babão’ no Centro Histórico de Curitiba – Foto Pinterest

Segui meu passeio com Helena até finalmente chegar ao “cavalo babão”. Ali, ela desfila no parapeito. Sabe que a água é suja e que cair ali não seria um bom negócio. Por isso, me dá a mãozinha para ser conduzida na volta pelo chafariz. Ela dá o primeiro passo e um dos policiais, o maior deles, vem atrás e se aproxima de nós. Helena, no reflexo diz, “aiaiai, moço, vai caí(r)! Não pode. Tem que dar a mão pro papai”.Fiquei imaginando aquele galalau de mãozinha dada comigo, passeando pelo chafariz. Acho que ele também pensou o mesmo.

Finalmente Helena arranca um sorriso do policial, mas que prefere entrar no carro e ir embora. Afinal, duas broncas de uma criança, logo no começo do dia?

Na volta para casa, o mesmo policial conversa com um dos moradores de rua. A cena novamente hipnotiza a criança. Helena para até que a conversa termina com o rapaz sendo convidado a entrar na viatura policial.

O carro segue com os dois personagens de Helena naquele dia, indo embora. Ela nada pergunta, se mantendo em silêncio.

*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de tv, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário.