Com quase 63 anos, achava que já tinha experimentado todo tipo de dor. A física e a da alma. Todas elas ensinam. Ou a gemer mais alto, a reclamar mais, ou de sofrer calado, sem lamentações. Todas ensinam, acho que em especial a dor da alma. E sempre aparece uma dor nova para experimentar.

Destas de perda, com morte, achei que já estava bem calejado, mas não. A dor de morte da mãe da gente é inigualável. Parece que vai além da dor. Meu vocabulário ainda não sabe definir o que é isto.

Até o dia 20 de outubro, um sábado, mal sabia eu o que me esperava mais adiante. Lá pelas 9, 9 e 15 da noite. Diz o óbito que foi às 9:45 hs. Não, foi às 9:15 hs. Ela veio como um fato sem direito a nada. Um tabefe de tontear.

A cena do silêncio e da resposta do organismo dando fim a um sofrimento, foram os primeiros sinais que percebi. Foi olhar e entender o que estava acontecendo, mesmo que tenha ido no mais absoluto silêncio. Aliás, foi o silencio que chamou atenção.

Foi o silencio que não se ouvia há meses no quarto daquele hospital que chamou atenção. Nos quase três meses entre idas e vindas ao hospital, entre lamentos de dores, dificuldades de respiração, tornavam a noite dela e de seus acompanhantes, um martírio. Dela porque sofria fisicamente, e já era incapaz de verbalizar. De uma senhora com seus 86 anos, a uma criança indefesa, incapaz de dizer o que incomodava e que tirava o pouco da dignidade que restava e que sempre foi produto que deu e distribuiu por aí, pra quem conseguiu entender onde estava a chave da porta secreta.

Como se tivesse me avisando que não habitava mais aquele corpo, aquela roupa que vestiu durante sua vida… assim minha mãe se foi.

Primeiro o impacto, depois o pedido de ajuda profissional, da enfermagem de plantão, mas sabia que a partir dali era só o começo de uma outra história que duraria pouco mais de 24 horas, o velório. Outra etapa onde o tropeço em alguns profissionais da morte deveria ser desnecessário ou oferecer conforto e colo, menos um negócio lucrativo e sórdido.

Naquele momento, ainda precisava avisar uma legião de bravos combatentes que ao meu lado ajudaram a contar esta história, de um amor que ficou para sempre.

Não pela doação no final, mas pelas histórias que construímos em nossas vidas, com ela e meu pai. Tivemos e ainda temos uma família que se alimenta deste amor.

Foi o que nos deixaram nossos pais.

 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Banda B.

 


*Sergio Brandão é jornalista há 43 anos, com passagem pelas principais emissoras de TV, rodou o Brasil por conta da profissão. O jornalismo que ensina a olhar as coisas com olhos diferentes, para Brandão é um exercício diário. Sempre com uma narração leve e didática, às vezes romanceada, conta histórias da vida, num cotidiano de todos, mas que também servem de espelho. Coisas da vida, do nosso dia a dia, que encontramos numa interpretação semanal, vista com olhos de quem vê a vida por um viés que às vezes passa batido. Um bom momento para aqui no Blog, ver uma vida contada em textos.