Assim que soube da morte de Krüger, lembrei das muitas homenagens que já dediquei ao Flecha loira. Parte de um dos textos que publiquei em outro blog, está em meu livro, lançado em outubro do ano passado que segue abaixo, junto com a gratidão que devo a este homem.

Faço parte de uma geração que bate no peito pra dizer que viu Pelé jogar. Foram várias vezes. Até pela Seleção Brasileira, quando se preparava para a Copa de 70, quando venceu o Coritiba, num amistoso no Belfort Duarte, por 2×1. Naquele dia, Nilo, lateral esquerdo do Coritiba, defendeu a Seleção.

Vi Pelé outras vezes com a 10 do Santos, contra o Coritiba, na época que o Campeonato Brasileiro era chamado de Roberto Gomes Pedrosa.

Dirceu Krüger. (Divulgação/Coritiba)

O “negão” de fato era diferente. Fora de série mesmo, era completo. Tinha fundamentos, categoria. Tocava na bola de forma diferente.

Na mesma época, o Coritiba tinha um time de craques. Naquela época, todo time brasileiro tinha pelo menos um craque. No Coritiba tinha uns três ou mais.

Em 1968, eu com 12 anos, meu irmão Luiz Fernando com 10, ele recebe um diagnóstico de leucemia. Seu amor pelo Coxa era algo incomum. Ainda não vi coisa igual.

Uma prima nossa, mais velha, a Maria Teresa, conseguiu nos aproximar de alguns jogadores do Coritiba na época.

Quando me dei conta, até com alguma frequência, passamos a reunir em casa e no hospital (às vezes que meu irmão esteve internado), muitos atletas do time Coxa daquele período. Comandando a tropa, o nosso Pelé – Dirceu Krueger- o Flecha Loira, o maior de todos os jogadores que o Coxa teve nesta sua centenária história.

Krüger comandou um time de craques em visitas ao Luiz Fernando: Passarinho, Hermes, Nilo, Kosilek, Célio, Hélio se transformavam no melhor remédio que aquele pequeno Coxa podia ter naquele momento.

A garotada da rua não acreditava que minha casa recebia aquele time de uma só vez, num só dia, numa só visita. Sempre muito atenciosos com todos. Na linha de frente, lá estava sempre ele, Krüger comandando o time. Foram três anos seguidos assim.

De 68 ao final de 70, Luiz Fernando, meu irmão, ainda viu o Coritiba campeão algumas vezes, acompanhei junto com ele a primeira campanha do Coritiba pela Europa, antes de 72, quando voltou “Fita Azul”, de onde Krüger nos mandava postais, contando as façanhas do Coritiba. Também ainda deu tempo de ver o Brasil tricampeão mundial, no México. Tudo isso era o sonho de consumo de muitos e que para nós, especialmente ao meu irmão, passou a ser habitual na nossa convivência, graças a Krüger, que desde cedo sempre usou o futebol para bater um bolão, além das quatro linhas.

Por muitos anos, Krüger foi o símbolo mais forte que tivemos do Coritiba, em casa. Mesmo com a morte de Luiz Fernando, anos depois, Krüger continuou em nossas vidas… aliás, continua…

Sempre no dia das mães, mandava flores à minha mãe, sempre ligou ou apareceu no Natal. Até onde conseguiu, Krüger nos visitava, sempre em nome da amizade feita por conta da doença do Luiz Fernando e que seguiu mesmo depois de sua morte.

Para a família Coxa, nem Pelé, nem ninguém será maior que Krüger.
Krüger é o que Armando Nogueira chamava de “craque cidadão”.

A morte física de Krüger, me leva a esta história e que divido com vocês e junto com ela uma constatação: para os torcedores de hoje, os ídolos são outros e com outro perfil, onde uma selfie resolve e eterniza. São cidadãos do mundo. Estão identificados com outras coisas. Porque o mundo é outro, o futebol também.

Ao nosso ídolo maior, minha imensa gratidão pelo carinho durante todos estes anos. Muita luz em seu caminho, Flecha! A mesma luz que o acompanhou a vida toda.
Parabéns e grato por todos estes anos partilhados.

Viva você, Krüger!